nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


setembro 30, 2002  

Mas, não, dona Distie. A história aqui foi a da mãe esperançosa de ter crianças-prodígio. O problema era justamente eu não estudar, não aprender, e não tocar.

Meu negócio sempre foi colorir. Até hoje é.

Se bem que eu queria ter sido uma criança-prodígio. E também queria ter tido um mentor que tivesse me ensinado tudo, depois morrido e me deixado sua biblioteca.

mais um chororô de bel seslaf
 

Quando eu vou a uma sala de bate-papo, este é o tipo de diálogo que eu procuro:

- Let me sing you a song to comfort you.
- Is it very long?
- It's long, but it's very, very beautiful. Everybody that hears me sing it, either it brings the tears into their eyes, or else...
- Or else what?
- Or else it doesn't, you know. The name of the song is called Haddocks' Eyes.
- Oh, that's the name of the song, is it?
- No, you don't understand. That's what the name is called. The name really is The Aged Aged Man.
- Then i ought to have said "That's what the song is called"?
- No, you oughtn't: that's quite another thing! The song is called Ways and Means, but that's only what it's called, you know!
- Well, what is the song then?
- I was coming to that. The song really is A-sitting on a Gate; and the tune's my own invention.

Nunca dá certo.

Meu futuro filho ou filha está seriamente encrencado.

mais um chororô de bel seslaf
 

Empregos dos sonhos para Bebel

Nada sério: radialista na madrugada.

Mais ou menos sério: redatora de textos de trailer de filme.

Sério: colunista do The Onion.

Muito sério: pastora de ovelhas em alguma vila de alguma montanha européia, na companhia de dois cachorros bem grandes, peludos e amigos.

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setembro 29, 2002  

Minha música preferida sobre masturbação é
Touch-a, Touch-a, Touch Me, do Rocky Horror.

Minha música preferida sobre suicídio é
Dress Rehearsal Rag, do Leonard Cohen.

Minha música preferida sobre revolução socialista é
Todos Juntos, dos Saltimbancos.

Vocês?

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setembro 27, 2002  

Eu quase ia me desculpar pelo sentimentalismo nostálgico deste blog, mas não vou. Acabei de ler sobre o dia feliz do Rico no zoológico e vi que este é o caminho da luz. Vejam vocês que a história das ariranhas assassinas do zoológico de Brasília se espalhou pelo mundo e foi parar na infância portoalegrense do Rico! E ele achando que só eu lembro... Que nada, menino, isso faz parte do folclore das criancinhas brasilienses nascidas nos anos 70. Infelizmente, ó pessoas que estão lendo isso e se enquadram nesta categoria, o Rico não tem comentários lá no Pitangas pra vocês escreverem "eu lembro! eu lembro! quando a notícia chegou, eu estava no meio da aula de pintura com canudinhos, sinto como se fosse hoje!" Mas tudo bem. Fica aqui registrado que as minhas irmãs, os meus primos, o meu amigo que acha que sabe muito de Brasília nesses anos infantis apesar de ser araguarino, tia márcia, todos eles vão pensar justamente isso.

Da última vez em que estive no zoológico, já em São Paulo, também me apaixonei pelas lontras. Elas só ficavam nadando, brincando, girando dentro d’água; iam de um lado ao outro do tanque, cada vez com uma coreografia diferente; chegando na borda, batiam os pezinhos na parede pra dar impulso e começar tudo de novo. Às vezes, as exibidas davam uma olhadinha no público pra ver se estavam agradando e aí faziam uma manobra mais espetacular. Eu podia ter ficado um dia inteiro vendo isso. Eu quis ser uma lontra. E se eu senti mais ou menos o que o Zorro, de 4 anos, sentiu, acho que estou indo muito bem. É.

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Fui ver Cidade de Deus e gostei. Muito. Só vou dizer isso.

Ah, não, mais uma coisa. Tem um montão de acadêmicos por aí dizendo que o filme é a glamourização, a cosmética da violência. Eles foram lá e viram glamour. Tô com medo desses acadêmicos.

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setembro 25, 2002  

Impressionante como meu cérebro funciona debaixo do chuveiro. É lá que eu tenho as melhores idéias, é lá que ensaio diálogos que nunca acontecerão, e é lá que as memórias mais empoeiradas reaparecem pra me assombrar. Agora mesmo, debaixo do chuveiro, minha cabeça começou a cantarolar a música tema da novela Fera Radical, me fazendo reviver toda a angústia dos meus últimos dias de aulas de piano.

Tenho duas irmãs, e uma mãe que nos presenteou com histórias da Condessa de Ségur. É claro que nós, meninas exemplares, tínhamos que fazer piano e ballet. Começamos a vestir tutu com 3 ou 4 anos, e a martelar teclas com 5 ou 6. Minha mãe devia ser louca se realmente achava que eu ia dar uma bailarina. Fui, claro, a primeira a largar a sapatilha. Minhas irmãs, espertas que eram, disseram não ao piano rapidinho. E eu, querendo mais que tudo agradar à mamãe e já morrendo de culpa por ter desfeito seus sonhos de bailarina, fiquei presa às aulas de música.

A professora de piano morava na minha quadra, vizinha de porta da minha tia e da minha avó. Mamãe aproveitava as aulas semanais pra fazer uma visita prolongada, enquanto eu sofria no apartamento ao lado. Saíamos de casa pouco antes das 6 da tarde. A aula começava às 6:30. E essa espera de meia-hora, na casa de tia Dodó, era a maior angústia que eu até então conhecia.

Na sala, a televisão estava sempre ligada no começo de Fera Radical. Quando tocava a música de abertura, logo depois do resumo do capítulo anterior, eu tremia. Sabia que já deviam ser 6:10 e meu vexame estava próximo. Torcia pra nunca chegar o comercial porque acreditava, de certa forma, que era ele quem fazia o tempo passar; se a novela continuasse e continuasse e continuasse sem comercial, seria sempre o primeiro bloco, sempre 6 e pouco. Mas ele chegava e já eram 6:20. Meu coração batia disparado, eu me afundava no sofá. A Malu Mader era uma motoqueira que morava em uma casinha de sítio com um lago na frente. Eu tentava desesperadamente me transportar até ali. E aí eram 6:30.

Eu me dirigia ao apartamento vizinho como um prisioneiro nu na frente dos oficiais fardados. Mal tocava a campainha. A professora atendia com o rosto cansado de um dia inteiro de aulas sofríveis. O apartamento dela era escuro e pesado: cortinas grossas, sofás imponentes, papel de parede estampado, quadros, cristais, bibelôs. Uma cachorrinha minúscula latia finíssimo toda vez que sentia um movimento. Era velha e manchada como o resto da decoração. Enquanto eu martelava e errava, via as caretas da professora pelo canto do olho. Não a culpo. O telefone sempre tocava durante a aula, e apesar de haver 2 filhas e 1 marido escondidos nas demais dependências a essa hora, nenhum deles jamais atendeu. O som das minhas notas tortas brigava com os toques histéricos do telefone, deixando a professora enlouquecida. Depois de uns 15 trins, ela levantava bruscamente, resmungando. A cachorra se assustava e latia. A professora gritava em direção aos quartos “é pra fulana!!”, e voltava ainda mais irritada e exausta que antes.

Na parede, tinha um quadro da fase azul de Picasso, onde eu buscava conforto. Minha mãe sempre falava da fase azul de Picasso. Também tínhamos um em casa: um homem azul na mesa azul de um bar azul, com uma caneca na frente. A caneca está tampada ou de cabeça pra baixo? É fechada. Eu nunca entendi.

Um dia, finalmente tomei coragem e disse pra minha mãe que não queria mais fazer piano. Não me lembro bem de como foi, mas ela deve ter ficado arrasada. Nosso amado piano Fritz Dobert de madeira caramelo continuou morando com a gente por muitos anos. Às vezes me sentava nele pra tocar umas musiquinhas tradicionais do livro do Mário Mascarenhas. Olhos Negros era a minha preferida, caprichava na interpretação – andante no começo, allegro no final. Dos métodos Leila Fletcher eu nunca quis me desfazer. Eles eram cheios de ilustrações antigas, muito boas de colorir.

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setembro 24, 2002  

O Pablo foi que notou. O cartaz de um candidato a deputado chamado Emerson Kapaz diz o seguinte:

São Paulo precisa de gente assim - Kapaz

Viram, né? Leram alto, né? Muito bem.

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setembro 23, 2002  

Publicitários...

Já viram aquela propaganda fina da mini garrafa de Chandon, em que uma mulher entra num bar elogiando "as coisinhas pequenininhas, que gracinhas" de desconhecidos pra logo cair de boca nelas? Se os caras fazem isso pra vender champanhe, imagina o que fariam pra vender Caracu.

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setembro 21, 2002  

Aviso: Tirei o Chepooka do ar porque ele estava entrando todo errado, chamando um index na página principal, e eu não entendendo mais nada. Vou tentar consertar, mas com pressa nenhuma. Quem quiser me ajudar, explicar as coisas do html, dos redirecionamentos de endereço e da vida, por favor escreva. Ficarei muito agradecida.

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A síndica do meu prédio é gente que faz. Obras e mais obras. Há uns 3 meses, armou uma operação gigantesca só pra dar um banho aqui no edifício Guaratuba. Fiquei sem poder apreciar a vista dos prédios da frente, porque tudo foi coberto por um pano estranho. De manhã, acordava com os cabras conversando na minha janela. Eles usavam uns jatos de super ultra pressão plus pra limpar a fachada. Um dia, jogaram aquilo na caixa guardadora de persiana que fica sobre a janela e fizeram uma cachoeira de água marrom-preta descendo pela parede do meu quarto, desembocando bem na minha estante de livros. A coisa toda durou um mês.

Agora, a nova invenção foi instalar um desses sensores de movimento no hall do elevador, onde antes ficava o interruptor de luz. Eu estou chegando em casa, abrindo a porta do elevador já com a mão preparada pra bater no interruptor e, pá, a luz acende sozinha. Abro a porta do apartamento pra sair, já condicionada a me dirigir até o interruptor e, pá, a luz acende sozinha. Me sinto uma inútil.

É essa a grande ambição do homem muderno, não precisar mais mexer nenhuma parte do corpo? É pra eu achar legal essas matérias sobre a casa inteligente do futuro, onde todas as portas são abre-te sésamo? Ah, não. Eu quero girar minha própria maçaneta e apertar meu próprio interruptor, obrigada. Vou criar o MDTCDT – movimento em defesa do tato contra dispositivos tecnológicos. Mas só se o MVVS – movimento pela volta à vida selvagem – não emplacar, claro.

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setembro 20, 2002  

Por que é que quem tem guarda-chuva sempre anda debaixo da marquise?

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setembro 19, 2002  

Por que todo post meu calha de ter aspas?
Eu detesto aspas.

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Camizi, a caminho do meu curso, lá na Lapa, tem uma loja de macumba. Toda vez que passo na frente e vem aquele cheirinho, me sinto de novo criança na 208, indo ver lapiseiras coloridas na Casa Sandra.

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E eu adoro o '2 coisas que eu odeio e 1 que adoro', do Angeli. Vão ler o de hoje na Folha.

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Meu mais novo vício televisivo é um programa do Shoptime que só vende roupas de cama, reprisado à meia-noite e meia. O sotaque carioca da apresentadora é de matar, mas eu adoro os edredons.

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setembro 18, 2002  

Sabe aquela da Dorothy Parker - men seldom make passes at girls who wear glasses? Pois. Finalmente descobri que isto é poder. Quando estou de óculos escuros, é sempre aquela chateação. Mas quando saio de oclinhos normais, os cabras olham pro meu rosto e não descem para as partes. Melhor: ficam meio sem jeito e passam cabisbaixos. Que maravilha. Não me sentia assim desde o piercing da sobrancelha. Posso circular tranqüilamente pelos terminais de ônibus e portas de bar.

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setembro 15, 2002  

Eu queria dar um beijo na boca dos seguintes indivíduos, nas seguintes ocasiões:

1. do Malcolm MacDowell, quando o Alex acabou de ser preso, bem naquele sorriso sarcástico e sangrento.

2. do Tim Curry, depois de cada risada do Frank N. Furter, mas limpando antes o batom.

3. do Michael Palin, em todos os esquetes do Monty Python, menos nos que ele está de bigode falso e/ou laquê no cabelo.

Meus símbolos sexuais não são coisa de gente normal.

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Isso tá ficando chato. Mas agora eu não posso deixar de falar do Carlos Drummond que é o segundo em recorrências, mas que, no dia daquele post lá, me escapou. "Tenho horror, tenho pena de mim mesmo / e tenho muitos outros sentimentos violentos".

É isso. Pronto. Não faço mais. Juro.

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setembro 13, 2002  

Charlene se foi. Minha irmã mais pequena, a mais diferente, agora está a caminho da Itália. Quando voltar, vai ser outra pessoa. Estou louca pra conhecê-la.

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Mereci um dia inteiro de despedida só pra mim. Privilégios de quem está longe de casa. Irene chegou ontem às 11 da manhã com suas malas vermelhas e uma ansiedade divertida, e embarcou em Barulhos às 10 da noite com o coração aos pulos, depois de 3 horas de aeroporto, 4 cigarros, 8 "pra que que eu fui inventar isso?" e 1 suco de maracujá. Foi de avião holandês até Amsterdã, onde vai encontrar o Felipe, e depois é direto pra Milão. É a primeira vez que vai morar numa cidade de verdade, com rua e gente na rua, trem, metrô, andança. Vai conhecer a Bertha, procurar apartamento, falar porca miséria e "ser a melhor da sala", segundo ela. Já encomendei muitas fotos dos alpes italianos, pra onde um dia juro que me mudo. E é melhor ela escrever toda semana!

Ê, menina... Inda bem que você foi inventar isso.

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Chega de sentimentalismos. Irene trouxe presentes! De Camolho, especialmente de Novaiórque:

Finalmente o Songs from a Room pra fazer 8 LCohens.
Dois lindos e modernos e.e. cummings.
Uma edição impressa do The Onion pra ler no banheiro.
E a trilha sonora do Rocky Horror Picture Show! Uêêêi! Cantarei aos berros toda noite.

E, claro, como a minha mamãe também mandou muitas, muitas empadinhas de carne moída, este é indeed um grande momento.

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setembro 11, 2002  

Como exercício do meu curso, traduzi pra dubladores os primeiros 15 minutos de Los Angeles, Caminho para a Morte. Foi só. Quem viu, favor dizer quem é bonzinho e quem é malvado, quem se dá bem e quem se dá mal. Obrigada.

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Como é que eu fui esquecer de 'súbito, uma angústia'? É outro verso onipresente.

Comigo, tudo bem.

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setembro 10, 2002  

Estes testes de blog trazem aquela saudade do meu caderninho de perguntas. No primário, todas as meninas tinham um. Era muito bom pra promover o auto e o alter conhecimento nas quartas séries A e B. A cada duas páginas, uma pergunta no topo, começando com 'qual é o seu nome' e indo por 'qual é o seu bicho preferido', 'qual é a sua música preferida', 'qual é a sua comida preferida' e, no meu caso, 'o que você acha da morte'. Embaixo, espaços numerados pra resposta de modo que a amiguinha número 8 sempre respondesse nos espaços de número 8. Organização exemplar.

Como responder era muito mais legal que perguntar, eu sempre inventava um novo nome e uma nova caligrafia pra responder o meu próprio caderninho várias vezes. Metida que eu era, uma vez respondi 'qual é o seu filme preferido' com Hanna and Your Sisters (sic), que até hoje não vi. Puta saudade.

É claro que agora faço todos esses testes de blog que encontro pela frente. De uma só vez e sem figurinhas, eu sou: Daria, imensidão azul, 20% lésbica, a princesa e a ervilha, tecido xadrez, tipo 4, depression disorder, Dr Scott, cold fish e gula. Agora vocês me conhecem.

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Estou fazendo um curso de técnicas de tradução pra dublagem e legendagem, toda tarde, a uma hora de casa. Como é de praxe, minha manhã fica então reservada para preocupações, antecipações, ansiedade e olho no relógio. À noite, é hora de comer pelo dia inteiro e aproveitar as poucas horas de alívio. Por isso, não vou escrever muito aqui nem responder e-mails rapidamente nas próximas duas semanas. Depois, vou ter dezenas de histórias de ônibus pra contar.

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setembro 07, 2002  

Acontece que o Adeline grudou na minha cabeça ontem à noite, depois de uma tentativa frustrada de conversa virtual.

Todo mundo tem uma trilha sonora na cabeça, não é verdade? Pois a minha cabeça também tem um gerador ocasional de trechos de poemas, com um repertório bem mais limitado, e também mais a propósito. Pensando em por que diabos eu copiei o Adeline aqui ontem à noite, eu percebi que tem uns 5 ou 6 versos ou estrofes que constantemente aparecem na minha cabeça, e ficam ali, se recitando sem parar.

O campeão absoluto de recorrências é um Fernando Pessoa: falhei a tudo, mas sem galhardias / nada fui, nada ousei e nada fiz / nem colhi das urtigas dos meus dias / a flor de parecer feliz. O poema todo está aqui guardado, mas é essa estrofe que vive me falando. Outro que vem sempre é o José Régio: finco a pata bestial, teimo em não sê-lo. Dramático. Um Álvaro de Campos que aparece em momentos de auto-piedade é o 'quantos césares fui! quantos césares fui! quantos césares fui!'; e, de uns tempos pra cá, eu tenho 'detido-me às vezes na torrente / das coisas geniais em que medito', igualzinho ao Mário de Sá-Carneiro. Igualzinha ao Mário de Sá-Carneiro. Só posso concluir que meu subconsciente é lusitano, o que mais?

Ah, sim, tem uns ingleses. A última estrofe do Ode to Melancholy, do Keats, é minha companhia constante, e sempre um enigma. Além do Adeline, outro Byron mora na minha cabeça: um poema imenso, decorado há muitos anos. Dear Becher, you tell me to mix with mankind / I cannot deny such a precept is wise / But retirement accords with the tone of my mind / I will not descend to a world I despise. Dá pra batucar esse poema, vê? E eu já batuquei ele inteiro muitas vezes, debaixo do chuveiro, nas paredes de casa. Acho que hoje não lembro mais.

Mas eu gosto mesmo é quando o Soup of the Evening gruda em mim. Soup of the evening, beautiful Soup! / Beau – ootiful Soo – oop! Ele não se contenta em não ser som. Ainda bem que eu estou sempre em casa e posso fazer bico o tempo todo pra dizer bee-oo-tiful, bee-oo-tiful, bee - ooooooo - tiful soooop.

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Mas que basbaquice ficar copiando poemas, não? Nunca pensei que eu fosse terminar assim.

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setembro 06, 2002  

There was of course in Adeline
that calm patrician polish in the address,
which never can pass the equinoctial line
of anything which Nature would express;
Just as a Mandarin finds nothing fine,
at least his manner suffers not to guess
that anything he views can greatly please.

Byron . DonJuan

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Quando perguntei no Chepooka sobre a profissão que levaria os leitores mais rapidamente ao suicídio, pouca gente respondeu. Camila, minha superpoderosa irmã, apresentou o melhor caso e quase me convenceu de que a pior profissão do mundo é a de ascensorista.

“Se está quente, coitado, terá que suportar o fedor azedo do suor das centenas de passageiros que entupirão sua cabine. Gordos pinguentos, motoboys sem desodorante e o perfume doce calda-de-açúcar das mulheres peruas olfativamente prejudicadas. Se estiver frio, terá que passar o dia com as unhas roxas porque, é claro, o condomínio não vai diminuir, quem dirá desligar, o ar condicionado, a 15º C. Ser ascensorista também prejudica as faculdades intelectuais - basta reparar nos volumes de Sabrina, Júlia e Bianca que pairam nas mãos das mulheres de pés inchados, sentadas no banquinho. Quando banquinho há, diga-se de passagem. Vontade de ir ao banheiro, nem pensar, só com hora marcada. Flatulência? Garantia de um dia inteiro de tortura, caretas disfarçadas e contorcionismo. Mas o pior, o pior mesmo, é ser inteiramente ignorado como ser humano e saber que seu trabalho é absoluta, inteira e inapelavelmente inútil.”

Camilho também colocou em segundo lugar, empatada com vigia noturno, a profissão de tecladista de churrascaria. Por muito tempo eu acreditei que pianista de bar fosse a profissão mais triste do mundo, culpa, talvez, de um filme francês que eu vi. Mas aí eu fui casar com um guitarrista e não posso falar mais nada.

Outra que respondeu foi a Letícia, que deixou de acreditar que vida de puta é difícil, é difícil como o que, e agora vota em qualquer função exercida em hospital, especialmente na emergência. Dona May, que freqüenta a sala de literatura do terra, fez uma piada com coveiros. E o Fernando, meu colega de livraria, disse muito espertamente: “talvez eu possa classificar o meu [emprego] como aquele que me levaria mais rapidamente a um homicídio”. Arrá! Eu testemunharia a favor do Fernando.

Como já contei pra alguns amigos, o emprego que me levaria mais rapidamente ao suicídio seria qualquer um em que se ouvisse a frase “reunião de planejamento estratégico”. Sem dúvida, eu pulava da janela da sala de reuniões, espetáculo e tudo. Been there, almost done that. Nem ter uma família megalômano-sociopata como patrões em outro emprego foi pior que escutar 8 horas de marquetês por dia nesse. Quoth the raven, “Nevermore.”

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setembro 05, 2002  

Pensamento das duas da manhã. Que que eu faço com a minha televisão? Vendo ou tranco no armário?

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setembro 04, 2002  

É por dois motivos.

O primeiro, tentar adquirir uma rotina de escrever, que eu preciso. Meio wishful thinking da minha parte. Eu pensei que ia conseguir a mesma coisa com o Chepooka, e o que aconteceu foi o oposto. Aversão de escrever. Vontade de calar a boca.

O segundo, parar de me sentir como o cachorro com o violino na janela. Eu quero ver como é correr atrás do carteiro.

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