nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


abril 27, 2003  

Sexta-feira, vi um anúncio do bazar fórum-triton na Folha, "até 80% de desconto!", e fiquei em polvorosa. A idéia de poder comprar um jeans da triton por 30 ou 40 reais fez meu dia mais feliz. Dia seguinte, despenco até o Belenzinho, cheia de esperança. Meia São Paulo também. São dois andares de encalhe, cheios de calças firulentas (um dos modelos tinha uma cortina de teatro na frente) e blusinhas lisas cor-de-rosa, listradas cor-de-rosa e floridas cor-de-rosa. Na saída, pessoas carregavam sacolas de 10 quilos de roupa. Pareciam estar chegando do Paraguai. Tudo que eu consegui pinçar dali foi uma camiseta listrada de verde, azul e laranja. Que que há de errado comigo?

(mas a minha camiseta listrada fez meu dia mais feliz)

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abril 25, 2003  

Para as duas leitoras que dão sentido à minha vida, tenho a dizer o seguinte: estou com esses vídeos sacais sobre negócios (mil vezes eca) pra traduzir que me dão muito trabalho. Não pela dificuldade, mind you, mas pela profundíssima e inabalável preguiça que me causam. Bocejos, contorções, gemidos, indignações e birras pelo dia afora. Fazer o quê? Tenho que ganhar dinheiro. Só tenho que resistir à tentação de usá-lo comprando passagem e pólvora pra plantar um bomba na Escola de Administração de Harvard. Eu quero que a Escola de Administração de Harvard se exploda, especialmente se um certo George Stalk estiver lá dentro.

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Tive uma idéia. Já viram esses livros só com modelos de cartas? Na livraria, vi que há um bom mercado pra isso. Os de cartas comerciais vendiam como água, e quatro ou cinco clientes apareceram por lá naquele ano atrás de modelos de cartas de amor. Pois bem, vou lançar um livro só com modelos de cartas de resposta a spammers. Já escrevi umas quatro; as duas últimas muito malcriadas. Acho que vai fazer o maior sucesso e eu vou me realizar prestando esse importante serviço aos internerdas do mundo.

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abril 21, 2003  

Puxa vida, mais uma tragédia aconteceu. O barco afundou. Não quero parecer insensível, mas há um clichê na cobertura jornalística dessas tragédias que me diverte, e é quando o único sobrevivente, digamos, de um choque entre dois ônibus que matou 40 estudantes, ou de incêndio que arruinou bem umas 20 famílias, diz pras câmeras: "foi deus que me salvou". Realmente o cristianismo é uma coisa interessante, e não só pelo viés sexual, como acha a minha irmã. O cristão em questão afirma que deus trabalha exclusivamente pra ele, mas mesmo com um furo desses nas mãos o repórter jamais retruca: "e você sabe o que deus tinha contra os seus colegas?" Foi-se o jornalismo investigativo. O que esses fiéis deixam a entender é que deus é um tanto preguiçoso em casos de catástrofes e tragédias. Qual é? Vai lá e salva um ou dois só pra mostrar serviço? Pega mal. É propaganda negativa de deus pelos próprios fiéis. E é isso que me diverte.

moral da história: acho que levei muito a sério as aulas de religião.

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abril 18, 2003  

Acho que, até agora, a grande contribuição de São Paulo pra minha vida foi a escarola.

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abril 17, 2003  

'Make a remark', said the Red Queen: 'it's ridiculous to leave all the conversation to the pudding!'

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abril 15, 2003  

Pois então. Eu tenho visto a programação vespertina do canal People & Arts, que é realmente única. Tem 'A história de um bebê', 'A história de um casamento', 'A história de uma passagem por vários provadores e um salão de beleza até você ficar um tanto diferente e muito mais ridículo do que sempre foi' e 'A história de como meu vizinho, patrocinado por esse canal de televisão e com a ajuda de especialistas, redecorou a minha casa de graça'. Todos esses programas me dão uma enorme sensação de conforto.

Pessoal deve andar meio sem ter o que fazer nesses países desenvolvidos pra bancar séries como essas. Eu me impressiono especialmente com a do makeover. Toda pessoa que passa por lá fica mais feia. Minha impressão é de que os consultores de moda, cabeleireiros, colorista e maquiadores não dão lhufas pro estilo pessoal do personagem em questão, já que todos saem com o mesmo cabelo paleta-de-cores e vestindo justamente a roupa pra qual fizeram careta na loja.

Em 'A história de um casamento' eu fico me perguntando por que as pessoas continuam a passar por aquela cerimônia de entrega da mercadoria. É um espanto. E mais: por que os noivos não decoram logo o texto que vão ter de falar? Essa coisa de ficar repetindo o que o padre diz é um pouco ridícula. "Eu...", "Eu...", "aceito você, Constância...", "aceito você, Constância...", por favor. E isso custa dinheiro, indaporcima.

Mas é. Televisão pra mim é isso. Inda mais em dia nublado.

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Frio + gripe + menstruação =
concentração -70 no trabalho
3 banhos por dia
e vontade de ver toda a programação
vespertina do People & Arts

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abril 12, 2003  

Eu quero acreditar que quase todo mundo é legal, é mais bom que mau, que toda gente é no fundo camarada. Mas sempre tem um bosta no caminho.

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abril 11, 2003  

Eu conheci figuras interessantes quando trabalhava na livraria. Além dos meus coleguinhas, que são boas pessoas, alguns clientes estarão pra sempre na minha memória afetiva: os velhinhos que gostavam de mim, o americano que queria passar sua última noite em São Paulo com um livro e muitas cervejas, o professor de filosofia que planejava pra mim uma carreira de bancária de meio-período pra que eu aproveitasse o resto do tempo lendo Epicuro, alguns outros velhinhos de quem eu gostava... E ela, a terapeuta reichiana que quis devolver um Alberto Caeiro porque o editor tinha cortado o "menino Jesus" do poema. Achei que ela estava certa. Ficamos chegadas.

Mais de um ano se passou desde a minha demissão e hoje, de repente, ela me liga. Está se livrando de livros que não lê mais, não quer mais, e separou alguns deles pra mim. Passamos a tarde conversando - eu ouvindo mais que conversando - sobre a energia e o corpo, as amarras e o crescimento, e todas essas coisas em que eu não penso nunca. Ganhei três Kafkas, dois Sartres e um Bataille sobre Nietzsche. Ficamos de nos ligar, mas sei que vai demorar anos pra nos vermos de novo, se é que nos veremos de novo.

Em toda a minha vida, eu posso contar nos dedos as vezes em que coisas assim normais me aconteceram.

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abril 09, 2003  

Recebi um catálogo do canal shoptime outro dia. Catálogos são coisas tão absurdamente cafonas que acabam tendo lá o seu charme. Eu o recebi num dia particularmente duro, em que o trabalho não rendia e a cabeça doía e o tempo passava rápido demais, e resolvi ir pra cama às 9 da noite levando ele junto, pra dar sono.

Na segunda página, o catálogo já tinha me ganhado. Foi patético, eu babava. Descrições como "Bonita e prática, esta lixeira é ótima para cozinha, banheiro ou escritório" me cativaram. Em minutos, eu já queria comprar a caçarola quadrada london tramontina, o kit porta-toalhas pratice, um cobertor fleece na cor bege e no tamanho casal, e o aparelho de waffle fun kitchen, que eu já sei por experiência própria que não dura nem dois meses, mas que estava prometendo "buraquinhos maiores para acomodar mais manteiga, mel, queijo ou qualquer outra cobertura que você imaginar", imagine só.

Nem preciso dizer que o sono não veio e eu fiquei como aquelas crianças que vão em festa de família à noite e deixam as mães desesperadas: "ó, ficou excitada, agora não vai dormir!" Mas o motivo mesmo deste post é que eu tinha de compartilhar uma descoberta com vocês. É uma pena que eu não possa mostrar a foto aqui, mas saibam, crianças, que já inventaram um aparelho que faz café numa ponta, esquenta croissants na outra e ainda frita um ovo em cima. Não é sensacional? Melhor que isso, só se viesse acopalhado numa poltrona com rodinhas e desse de brinde um controle-remoto pra vida.

...

Mas o meu sonho de consumo mesmo é um certo colar de um certo episódio de Twilight Zone que, a um certo comando malcriado, responde paralisando o mundo inteiro.

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abril 03, 2003  

Eu aqui correndo contra o tempo pra cumprir meus prazos, e o corretor ortográfico do word sugerindo que eu troque voltar por Voltaire. E eu pensando que o word era o programa mais burro do mundo.

Amanhã estarei livre outra vez e postarei bobagens. Mal posso esperar pra deitar no meu sofá preto amanhã à tarde e terminar de ler The lost continent. Fui tristemente interrompida em Santa Fé, estou louca pra chegar a Utah.

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