nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


janeiro 31, 2003  

Eu tinha uma régua japonesa de 30cm que foi muito amada e muito bem cuidada por mim. Ela contava a história de João e Maria em 5 quadrinhos, com efeitos especiais de animação - aqueles de virar pra cima e pra baixo pra ver a imagem se movendo. Se ela estivesse comigo agora, eu ia olhar fundo, me concentrar, meditar, perder o foco, perder o tempo, até conseguir ir pra dentro dela. E, uma vez perdida na floresta, nunca mais me puxariam pra fora.

mais um chororô de bel seslaf
 

Eu sou incapaz de escrever ficção. Nunca criei uma história que não acabasse no segundo parágrafo. E eu já tentei bastante, no passado: pensava num mote bacana, fazia uma boa frase de abertura, tentava imaginar pra onde aquilo iria, e imediatamente empacava. Não adianta. Eu não consigo inventar pessoas e histórias pra essas pessoas e, francamente, também não tenho muita vontade de fazer isso. Não escrevo ficção e pronto.

Na verdade, eu nunca tive ambições literárias. E se quando criança eu acreditava que poderia ser a melhor em qualquer coisa que me propusesse a aprender, depois de velha eu percebi que sou péssima em quase tudo, do aprender ao fazer; eu só poderia mesmo me destacar no ramo do picuinhismo, pegando as pessoas em insignificantes deslizes lógico-lingüísticos, atormentando-as pelo resto da vida por uma escolha infeliz de palavra e torcendo conceitos e raciocínios para que melhor me sirvam. Com essas qualidades, eu percebi já na faculdade de jornablerguismo que eu me sairia melhor corrigindo que escrevendo. Revelei essa minha grande ambição de vida na aula de Comunicação Comparada certa vez, quando o professor perguntou pra cada aluno que posto eles gostariam de assumir numa redação: depois de tanta gente querendo ser correspondente internacional, repórter de caderno cultural e editor de política em jornal nacional, minha resposta de que queria ficar na sala do copidesque provocou no professor o mais memorável olhar de compaixão que eu já recebi na vida. Não que eu tenha me importado.

Em 3 anos de São Paulo, procurei meu lugar entre os leitores / corrigidores de texto, ainda que sem muito afinco. Não consegui nada. De bater em porta de editora fui parar numa livraria, onde eu presenciei uma porção de histórias de verdade, estreladas por pessoas de verdade, e mais verdadeiras e interessantes do que qualquer ficção que eu pudesse criar. Coloquei essas histórias no papel e elas viraram crônicas. Crônicas. Foi só o que eu consegui escrever, e razoavelmente bem. De alguns apreciadores de literatura que consideram a crônica um gênero menor, já espero o conhecido olhar de compaixão e desprezo. E o pior é que eu me importo dessa vez.

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Eu, que sou muito apegada às minhas neuroses, já sabia que elas me acompanhariam sempre, por toda a vida. O que eu não previa é que elas fossem ganhar irmãzinhas.

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janeiro 30, 2003  

Estou gripada. Desde que acordei, já saiu meio litro de coisa do meu nariz. Eu sinto que o meu nariz conspira contra mim. Agora mesmo ele está espalhando microbolhas coceguentas por todo o meu rosto. Minha cabeça vai estourar como champanhe. É, eu sempre quis me livrar desse nariz que, além de feioso, jamais funcionou a contento. Desde pequena eu sonho em arrancá-lo fora. Talvez o Michael Jackson tenha arrancado o dele pelo mesmo motivo. Ninguém pensou nisso.

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janeiro 28, 2003  

Eu gosto de lullabies. São sempre tétricos. Mas eu não ouvia quando era criança. Minha mãe não chegou a cantar que o boi da cara preta vinha me pegar nem nada. Ela devia ser contra aterrorizar as filhas, apesar de cantar lá algumas músicas macabras de Montes Claros, como:

quem matô papai, vovô? quem matô papai, vovô?
foi um grande matadô, foi um grande matadô.
quem matô mamãe, vovó? quem matô mamãe, vovó?
foi a trança do cipó, foi a trança do cipó.


E tinha uma que só ouvindo mesmo pra imaginar o horror. O horror!

a baaarba do booode é um fio de cabeeeelo
a baaarba do booode é um fio de cabeeeelo


Tenho um medão dessa música, cantada por uma voz gutural. Só de lembrar fiquei arrepiada.

Mas, retomando, eu adoro lullabies. São sempre tétricos e tristes. Acho que comecei a gostar por causa daquele do Chico Buarque:

dorm'inha pequena
não vale a pena despertar
dorm'inha pequena
não vale a pena despertar


E agora conheci o do Tom Waits:

if i die before you wake
don't you cry, don't you weep
nothing's ever yours to keep
close your eyes, go to sleep


Alguém conhece mais lullabies não-tradicionais, não feitos para crianças e gravados por gente bacana como Chico Buarque e Tom Waits? Estou querendo colecionar.

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janeiro 27, 2003  

retratação

Puxa vida, denegri meu próprio marido. Perdão, Pablo, limparei seu nome.

O Pablo não quis dizer realmente que eu deveria me preocupar com a situação política mundial, ele só disse a primeira coisa que lhe passou pela cabeça, como é de seu costume, com o nobre intuito de me desirritar. O fato de eu ter distorcido tudo pra que eu parecesse vítima de menosprezo marital e abuso psíquico quando, na verdade, nada disso aconteceu, só prova que eu sou uma pessoa desprezível. Obrigada.

p.s. Isso vai meu custar um pingado a mais por dia por pelo menos um mês.

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Em comentário ao post abaixo, Pablo diz que, se é pra eu me indignar, eu deveria procurar notícias sobre o Afeganistão, e não programas e sites de fofocagens. Mas eu faço isso só pra provar que eu sou uma pessoa desprezível. Obrigada.

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Há muito que se aprender vendo os programas de tv da madrugada e lendo coisas inúteis na internet. Naquele programa de sexo da Monique Evans, por exemplo, revelou-se para mim que muita gente acha a masturbação aceitável somente para solteiros; entre um casal, há quem acredite que a masturbação de um é não só uma rejeição aberta ao outro mas, pior, uma ofensa, uma ofensa fatal. Isso me intriga. A Monique Evans, parece, terminaria um casamento se pegasse o marido se masturbando no banheiro. A convidada da Monique Evans também, e muito indignada. O convidado da Monique Evans, esse desconversou. Hum.

Pois outro dia uma mulher escreveu para a coluna de conselhos da Salon reclamando do hábito “chocante, desrespeitoso, amoral e repulsivo” do marido de se masturbar na frente dela, vendo vídeos pornográficos e ainda por cima usando brinquedos, vejam só que sujeito prolífico. E então ela descreve as circunstâncias: estão casados há 10 anos, ela prefere ler um livro a transar com ele, ele quer todo dia, ela só aceita, a contragosto, uma vez por semana. Não sei se ela acreditava que o marido ficava só esperando o dia marcado pra sexo sem fazer nada nos outros, mas é claro que não ficava, e um belo dia ele chegou e disse que não ia mais fazer escondido; ia fazer no conforto de sua própria cama e os incomodados que se retirassem. Acho muito justo, vocês não acham? Achei que o colunista ia achar.

Pois o colunista, naquele psicologismo barato tipicamente americano, teve um piti junto com a mulher, fez exclamações de nojo, disse que o marido “está rompendo uma barreira sagrada”, “mostrando claramente, em termos simbólicos (sic)” que ela está “indefesa”, e o que ele faz é como “um estupro psíquico”. O quê?! Estupro psíquico? Give me a break! Para o colunista, o marido, “um imbecil raivoso”, está obviamente tentando provocar, magoar, passar um recado. E eu aqui pensando que ele só queria se aliviar um pouco. Ah, sim, o colunista acha também que ele pode só estar precisando se aliviar... mas que se ele precisa disso, então ele é do tipo que “precisa ir a boates de strip tease assistir lutas de lésbicas na lama”. O negócio, diz ele, é que ela “tem que fazer (o marido) parar, não importa como, sem negociar” e então deve “fazer ele entender que, uma vez que aceite parar, há muitas opções” pros dois. Que generoso da parte do colunista.

Crianças, eu queria colocar aqui mais pérolas tiradas da resposta à esposa ultrajada, que termina sugerindo divórcio já (o marido vai agradecer essa), mas esse post já está fora de controle, não é mesmo? Não liguem. Eu só ando meio irritada com a estreiteza das coisas americanas. E, sempre, com regras que não fazem o menor sentido. And I’m all for masturbation, of course.

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janeiro 26, 2003  

Nesses dias de pasmaceira, a única coisa digna de nota da minha semana foi ter provado o biscoito waffer de goiabada com queijo, que eu comprei pela bizarrice. Realmente, o poder da química é notável. O biscoito tem gosto de goiabada com queijo, sem tirar nem pôr, apesar da crocância. E isso sem uma goiaba de verdade lá dentro, sem um dedinho de queijo minas. Só pode ser coisa do demônio.

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janeiro 20, 2003  

Well... acho que vou parar de escrever aqui, porque está tudo muito ruim, e tudo me envergonha, e eu tenho que me preparar pra seja o que for que eu tenha que fazer. Ou talvez amanhã mude tudo, eu sei lá. Não apareçam todo dia, não. Apareçam mês que vem. Mandem um e-mail me xingando. Mandem amostras grátis de remédios também. Qualquer remédio. Um abraço.

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janeiro 19, 2003  

Primeiras coisas a morarem na minha geladeira nova, depois de retiradas da velha Brastemp vermelha: 1 garrafa de água; 1 lata de atum; 3 cebolas, 3 tomates, 2 batatas, 1 pacote de alho e 1 pimentão verde; 2 maçãs, 1 mamão e meio limão; 1 garrafa de suco de ginseng vencido do Pablo; 1 garrafa de extrato de guaraná vencido do Pablo; 1 latinha de bicarbonato de sódio; 1 gelatina de morango.

Coloquei todos os meus ímas cafonas porém úteis na lateral - o da Comgás, o da Farmais, o da Pizzaria Margheritta e o da Mascote entrega de água, que vem grudado no Chaveiro Vas. Na frente, assim pontuando o Electrolux prateado, eu só coloquei o picolezinho de chocolate Raguendás. Achei muito esperto.

...

Há mais de um ano eu não compro sabonetes. Eu ganho muitos sabonetes de presente. É.

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Eu estou tão cansada de mim que nem 12 horas de sono por dia estão resolvendo. Acho que eu preciso de uma lavagem cerebral. Doutor, tire isso daqui.

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janeiro 18, 2003  

I'm in love with David Bowie, the Early Years.

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janeiro 16, 2003  

O animal com que eu mais me identifico é o caracol. Estranhamente, o caracol é sempre representado de forma fofa e amiga, assim como o porco, que no chiqueiro real não é adorável e cor-de-rosa. O caracol não é amarelo e adorável. O caracol não passa de uma lesma.

A lesma é um animal jamais representado como preto e adorável. A lesma é universalmente reconhecida como um bicho penosamente lento e ainda por cima asqueroso. Já eu tenho uma certa simpatia pela lesma, por sua ingenuidade. Afinal, a lesma passa toda a vida tentando fugir daquele rastro de nojo que ela deixa. Ou talvez ela saiba que o nojo é ela, e por isso é que é tão lenta. Claro, quanto menos a lesma se move, menos rastro a lesma deixa.

O caracol é uma lesma com um fardo a mais pra carregar. Há quem chame o fardo de casa. Se “o meu corpo é a minha casa” e a minha cabeça é o baú no sótão, então eu digo que dá no mesmo. O fato é que as caracolices do caracol não o deixam nunca. Estão sempre ali pesando e, pesando, estão presentes. O caracol não se desliga; não há nirvana possível pra ele.

E então que o porco chia, mas não quando está no desenho. E então que o caracol é amigo, ainda que nesse fardo de inércia e gosma.

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janeiro 13, 2003  

a stitch too late is my fate

Peregrinação aos sebos no sábado, e não é que eu acho o meu Ogden Nash no quinto deles, no meio de uma pilha de livros no chão? Bem-aventurados aqueles que gostam de sentar no chão, eu sempre soube. É o mesmo livro que eu queria na Amazon, mas numa edição mais antiga, de 1944. Talvez por isso ele seja um pouco menos completo também, mas os poemas a menos são compensados pelo selinho da última página - Send this book to a boy in the armed forces anywhere in the U.S . Only 3cents postage!. A gente se sente uma pessoa legal com um livro assim.

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janeiro 09, 2003  

Don't care how, I want it now!

Meu meu resolveu ontem que queria comprar 2 livros na Amazon, ignorando completamente o valor do dólar. Livros usados, então muito bem. No fim fiquei com inveja e disse que queria um também. Fui ver, e o livro do Ogden Nash que eu tinha colocado na minha wish list estava esgotado. Aliás, todos os livros do Ogden Nash estavam esgotados e fora de edição. Ninguém liga pro que eu ligo. Mas tinha exemplares usados de alguns deles, e resolvi usar aquele recurso tão amado da Amazon, que é o de ver os miolos, pra ler os índices e ver se algum valia tão a pena quanto o que eu tinha selecionado antes. Achei um perfeito, melhor até que o outro, só o índice já me fez dar risada. 5 dólares. Aceitável. Somamos os 3 livros, e deu 17 dólares. Ok. Ficamos felizes e contentes da nossa vida, preenchendo o pedido, cumprimentando-nos pela grande idéia. E aí veio o valor do frete. O valor do frete era de 29 dólares! Preço total pelos 3 livros usados em real: mais ou menos 160. Ainda tentamos ver se isso ou aquilo barateava o custo, mas nada. Cancelamos o pedido. Ficou um vazio. Eu quero meu Ogden Nash.

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janeiro 08, 2003  

Já tiveram a impressão de que um filme foi feito especialmente pra te agradar? A primeira vez que eu senti isso foi com um filme chamado The reflecting skin: eu nem gostei tanto assim dele como um todo, mas era como se o escritor/diretor tivesse entrado na minha cabeça pensando "hum, peguemos todos os pequenos elementos que despertarão o interesse de Bebel", e assim foi feito, e assim jogados no filme. Eu adoro esse título, The reflecting skin. Uma das primeiras cenas do filme é a de uns garotos explodindo um sapo, mas eu não tenho nada a ver com essa.

Anteontem vi um outro filme feito especialmente para mim. Eu estava esperando estrear nos cinemas há um tempão, mas ele foi parar no Telecine primeiro, infelizmente. É o Ghost World, um filme sobre uma garotinha petulante porém apática, a Enid, uma Daria com outras facetas. Eu queria dar um beijo nessa Enid, juro mesmo. E também freqüentar o mesmo brechó que ela.

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Querem fechar o Belas Artes, um cinema na Consolação, que a gente freqüenta. Dizem que ele é decadente, que o ar condicionado não funciona, que o roleteiro às vezes não está de pé ao lado da roleta esperando diligentemente pra rasgar o seu ingresso. Tudo verdade, mas quem se importa? O Belas Artes tem três grandes vantagens: dá pra ir a pé, passa filmes bons e não está dentro de um shopping. Acontece que a conversa agora é que "ninguém mais quer" freqüentar cinemas de rua e que, portanto, estão todos fadados a desaparecer. Dizem que "ninguém mais quer" sair de casa sem ter onde estacionar, ou ficar exposto nas ruas onde, todo mundo sabe, só podem acontecer assaltos, arrastões, seqüestros, assassinatos, rituais de magia negra e empalações. "Todos preferem" as salas de shopping, tão convenientes: assista ao filme, coma o combo-jumbo de pipoca e coca-cola e aproveite para fazer umas comprinhas. A vida moderna é isso aí. "Ninguém mais quer" cinemas de rua.

Meu desânimo é tão grande que nem posso comentar.

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janeiro 02, 2003  

pesquisa de opinião

Caros caríssimos, que porcentagem da população adulta brasileira, acreditam vocês, está mais para muxoxos que para festa, pagode, alegria e abraços no tio João a cada maratona de fim de ano?

Confesso que entre lembrar de tudo que eu não fiz ou fiz de errado no ano que passou e prever todas as cagadas que farei no longuíssimo ano que começa, não consigo achar muitos sorrisos. Só a palavra 'janeiro' já me dá uma preguiça invencível. Tudo outra vez. Que vida mais besta.

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