| nervocalm gotas (vol.1) |
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outubro 31, 2002 O sinal do canal playboy começou a pegar aqui em casa, assim de repente. Meio tremido, inteiramente dublado. Programa de ontem: Sexy Urban Legends. Um roubo de órgãos aqui, uma trepada ali, musiquinha de terror... Adorei. mais um chororô de bel seslaf O enetation, meu coiso de comentários, demorou muito nesse upgrade, mas pelo menos cumpriu o prometido e voltou na hora certa. Muito bem, enetation. mais um chororô de bel seslaf Eu detesto salão de beleza, já disse isso? É o lugar mais desconfortável do mundo pra mim. Primeiro, porque eu não gosto de fazer as vezes de sinhazinha, e é só eu pisar no salão pra virem com uma saraivada de “quer café? água? chá? suco? refrigerante? tem certeza? revista? revistinha? massagem? minha eterna servidão?” que eu não agüento. Fico só no “não, obrigada. não, obrigada. não, obrigada. obrigada, obrigada, obrigada”. Obrigada é a palavra que eu mais uso no salão. Até quando me cobram eu respondo obrigada, de tanta culpa. O segundo motivo é que, pra não atrapalhar a cabeleireira (ô, palavra), eu preciso tirar os óculos, e aí eu fico sentada a uns três palmos do espelho sem enxergar nem mesmo a minha própria cara. É uma situação ridícula. Eu não sei pra onde olhar e, mesmo se soubesse, não adiantaria nada. Quando estou sem lentes, meu maior medo é que alguém faça algum gesto pra mim, tente alguma comunicação visual, sabe como é? Eu não vou perceber, não vou responder, e a pessoa, crente que eu vi tudo, vai achar que eu sou alguma doida. Então, pra ficar bem claro para todos os presentes que eu sou míope, e não distraída ou retardada, eu tenho o seguinte método: fico ostensivamente abrindo e fechando e rodando os óculos nas mãos e, de quando em quando, também me fixo em algum ponto, aperto bem os olhos, fico assim por alguns segundos, depois faço uma cara de desalento pelo esforço inútil. Não sei se funciona. Mas o motivo principal da minha aversão é que salões de beleza são lugares pra se conversar, e nisso, que surpresa, eu não sou nada boa. Eu tenho certeza absoluta de que todos os funcionários do salão me recriminam pelo meu silêncio. Eu fico ali olhando pro meu colo enquanto a moça penteia, parte e corta meu cabelo, fingindo estar perdida em pensamentos importantíssimos, mas eu sei que a cabeleireira e a assistente e as manicures e os coloristas estão todos balançando as cabeças e fazendo tsc-tsc. Aquele silêncio em volta e a minha cabeça cheia de besteira. Como eu torço praquilo acabar logo. Como eu detesto salão. (Só uma concessão: gosto de sentir a navalha cortando o cabelo) mais um chororô de bel seslaf outubro 30, 2002 momento antena1 Eu já adorava essa música - sometimes i tell myself i'm better off without you / and then i have to face the emptiness i feel inside without you / and find a way to make it through another deh-eh-ay. É a alegria da minha hora de lavar louça e eu ainda sei assoviá-la muito bem. E agora que descobri que ela é cantada por um tal Buckshot Lefonque, eu adoro mais. mais um chororô de bel seslaf A minha vida é um limbo perpétuo. Eu só olho ela passar. Não faço nada, não termino nem começo nada, porque não me vejo vivendo mais que uns 2 ou 3 anos. Nunca consegui ver um futuro meu. Eu não-faço porque não tenho consciência de um futuro no qual terei de viver as conseqüências desse não-fazer. É como se eu estivesse sempre de férias, acreditando que morreria antes de ter que ir pra escola. É sempre um janeiro adolescente achando que março não vai chegar. mais um chororô de bel seslaf outubro 29, 2002 ... and on a personal note “The wretched mouse has by this time accumulated, in addition to the original nastiness, so many other nastinesses in the shape of questions and doubts, and so many other unresolved problems in addition to the original problem, that it has involuntarily collected around itself a fatal morass, a stinking bog, consisting of its own doubts and agitation, and finally of spittle rained on it by all the spontaneous men of action standing portentously round as judges and referees, and howling with laughter. Of course, nothing remains for it to do but shrug the whole thing off and creep shamefacedly into its hole with a smile of pretended contempt in which it doesn’t even believe itself. There in its nasty stinking cellar our offended, browbeaten and derided mouse stinks at once into cold, venomous, and above all undying resentment. It will sit there for forty years together remembering the insult in the minutest and most shameful detail and constantly adding even more shameful details of its own invention, maliciously tormenting and fretting itself with its own imagination. (...) But it is precisely this cold, sickening half-despair, half-hope, this deliberately burying oneself in a cellar for forty years out of spite, this well-established and yet somehow unconvincing powerlessness to escape from the situation, all this poisonous accumulation of unsatisfied wishes in the breast, all these feverish vacillations, all these resolutions firmly taken for all time and repented of again after a few minutes, that give rise to and nourish that strange pleasure i was speaking of.” Notes from Underground . Dostoievski mais um chororô de bel seslaf outubro 27, 2002 Eu acho que eu devia ler mais e passar menos tempo no computador, não é verdade? Como a estante de livros está do meu lado, vou fazer as duas coisas ao mesmo tempo agora. Vou esticar o braço e pegar o... Devil's Dictionary. Vou abrir numa página qualquer e ler o seguinte: Glutton, n. A person who escapes the evils of moderation by commiting dyspepsia. Outra: Luminary, n. One who throws light upon a subject; as an editor by not writing about it. Rá. Vou guardar esse e pegar outro. Um minuto... hum... How Proust can change your life: The moral? That life can be a stranger substance than chichéd life, that goldfinches should occasionally do things differently from their parents, and that there are persuasive reasons for calling a loved one Plouplou, Missou or poor little wolf. Entendeu? Tá, mas não vou voltar e ler o começo do capítulo. Vou pegar outro livro. Vou pegar o... Fausto, uma tragédia subjetiva: Eternamente excluídos uns dos outros, cada um é universo. Mundo dentro dos mundos, infinidades variadas, abismos muitos, sem fundo. Hum, cadê as partes de que eu gosto? Procurando... Ah: Toda a expansão e transfusão de vida me horroriza, como a avaro a idéia de gastar e gastar inultimente, inda que no gastar se esboce gozo. A mim, nem esperança, nem suspeita de sombra de esperança ocorre, mas o horror, completo e negro. Isso que lhe aparece por resgate é o que eu temo. Bem, Ambrose Bierce, Alain de Botton e Fernando Pessoa em 10 minutos já valem por hoje, acho. Agora vou jogar freecell. mais um chororô de bel seslaf outubro 26, 2002 O canal USA estava transmitindo agora uma sessão especial intitulada Mulheres no Controle. O filme? Atração Fatal. Serão os marqueteiros idiotas, ou eu é que sou implicante demais? mais um chororô de bel seslaf Eu quero que o Professor Jean Christian vá para o inferno. Eu quero que o inferno do Professor Jean Christian seja constituído de uma cadeira e um telefone, nos quais ele ficará grudado por toda a eternidade ouvindo a conversa de um telemarqueteiro burro. Eu quero que o Professor Jean Christian sofra de hemorróidas, flatulência, incontinência, baba, frustração e raiva. Eu quero que o Professor Jean Christian sofra, sofra muito, spammer de merda que ele é. Por favor me dêem idéias pra me vingar desse sujeito, porque denúncia não adiantou, callback spam não adiantou, e isso tá me deixando doente. mais um chororô de bel seslaf outubro 25, 2002 Vinte e sete. Comemorarei com uma bacia de rissoles. mais um chororô de bel seslaf outubro 24, 2002 Uma vez eu escrevi assim: deus é a medida da curiosidade humana. Aí eu mostrei pra uma pessoa. Aí ela falou: não tá claro. Eu fiquei muito frustrada. Aí eu acrescentei uma frase no final: deus é a medida da curiosidade humana; não há curiosidade para além de deus. Mas eu não gostei. Não parece comigo. Aí eu mudei assim, pra caber na boca do Bitterman Blewitt: looking for new spectacles, man met god on the fourth floor and never bothered climbing up to the fifth. Fiquei bem mais satisfeita. Achei que estava fazendo aforismos. Anyway, a medida da minha inteligência é Terry Gilliam. Em mim, não há inteligência para além de Terry Gilliam. mais um chororô de bel seslaf Deeply sympathizing with myself. mais um chororô de bel seslaf O primeiro emprego que eu tive na vida foi aos 24 anos, depois de formada e com dois meses de São Paulo. Eu não tinha idéia do que fazer pra achar um emprego - hoje eu tenho a idéia, mas continuo sem o jeito - nem sabia que emprego procurar. Estava de mal do jornalismo, não queria saber. Pensava em entrar numa editora, mas sabia que ia levar tempo. Eu achava que precisava começar a ganhar dinheiro logo, rápido, senão seria o fim do mundo e eu sofreria humilhações as mais terríveis. Minha relação com o dinheiro não é das mais saudáveis. Acabei batendo em portas de escolas de inglês. Uma delas me chamou pra treinamento. O coordenador do curso era um sujeito bacana, competente, que eu passei até a admirar nos meses em que trabalhei ali. Eu tentava encarar tudo da forma mais positiva possível; aceitei todos os conselhos de sorrir sempre, ser simpática, não falar baixo, etc, etc. Depois de duas semanas de treinamento, com simulações de aula e tudo mais, o coordenador me ofereceu o primeiro aluno. Fiquei apavorada, mas satisfeita. E então ele me disse: "Sabe, quando eu li a sua prova e vi que você tinha uma boa pronúncia e um bom conhecimente de inglês, eu já sabia que você ficaria com a gente. Mas na primeira vez em que você foi ao quadro pra apresentar uma aula, eu fiquei preocupado. Era como se a sua luz interior estivesse apagada". Minha luz interior, vêem? Apagada. E aí, de vez em quando, bate essa tristeza que só deitar no escuro com a cabeça encostada no rádio consola, e a Antena 1 sempre passa aquela música turn on your heart liiiight / let it shiiiine whereeeever you goooo / let it make a happy glooow / for aaaall the world to seeeee, e eu fico remoendo memórias desse calibre. mais um chororô de bel seslaf outubro 23, 2002 Um pouco de Fernando Pessoa para celebrar meus 27. “De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo quanto é vida. Nunca aprendi a existir. Tudo que quero consigo, logo que seja dentro de mim.” mais um chororô de bel seslaf A pérola eleitoral do dia, tirada do fórum de leitores do Estadão: "Meu Deus! Acabei de ler que as mulheres também são responsáveis pela possível vitória do Lula! Muitas delas estão a fim de ganhar, ganhar, ganhar. Seja o que for... Mesmo que seja só uma ilusão. Mais uma..." - Marli mais um chororô de bel seslaf Não escrevi nada sobre o filme do Michael Moore, né? Sorry. É o padrão. mais um chororô de bel seslaf outubro 22, 2002 Quando eu crescer, eu quero ser uma eremita aventureira muda que grita excentricidades pela rua. mais um chororô de bel seslaf Em momentos de tristeza combinada com um súbito retardo mental, eu ligo o rádio e fico ouvindo baladas dos anos 70 e 80. E aí, no meio de um there is freedom within, there is freedom without, eu penso que se há gente no mundo fazendo música, o mundo, afinal, não deve ser tão mau assim. Nah, mas é. mais um chororô de bel seslaf Já viram esses programas sobre o ciclo da vida em uma floresta ou um jardim? Pois vou chamar a equipe do National Geographic pra filmar o ciclo da vida no meu banheiro. Acabei de ver umas quinze formigas na porta do chuveiro devorando o cadáver de uma das três traças que eu matei ontem. Olhei em volta e não vi os cadáveres das outras duas. ... Ciclo da vida update: Agora eu vi as formigas devorando a traça no nosso microscópio de brinquedo. Que nojeira, francamente. As formigas estavam cortando a carne da traça. Uma formiga não gostou da minha intromissão e pôs a bunda na lente. Mais notícias a qualquer momento. ... Ciclo da vida news flash: Ainda tem seis formigas-urubus sugando o que resta da traça. Esta virou uma coisa cinza e seca. Eu pensei: se essas formigas da minha casa fossem leões, essa traça morta no chão de azulejo seria o mesmo que um mamute tombado no meio da savana, dando sopa. Imagino que elas tenham dado gritos de alegria com o achado, as carniceiras. Isso acaba com a minha visão idílica das formigas. Eu pensei que elas fossem vegetarianas. Agora, se a traça que eu matei fosse mesmo um mamute, não faço idéia do que seria o meu chinelo pra ela. ... Ciclo da vida extinta: Um mamute na savana faz sentido? Com leões? ... Auto-toltchocks: Eu acho que quem não sabe responder uma única pergunta do National Geo-Genius não devia sair por aí falando de mamutes. É muito temeroso. mais um chororô de bel seslaf outubro 20, 2002 Às vezes me dá vontade de ficar digitando sem parar e aí eu copio contos inteiros no meu computador. Outro dia fiz o Virgindade, do livro Bakakai, do Witold Gombrowics. Alguns de vocês já devem ter me ouvido falar umas 589.862 vezes desse livro, então não vou me repetir. O que eu quero é oferecer o conto pra quem quiser. É só pedir que eu mando o arquivo por e-mail, virus-free garantido. Não é o melhor conto do livro, mas é muito intrigante. Dá uma ânsia de mostrar pra todo mundo. mais um chororô de bel seslaf Venci minha preguiça e fui ver Bowling for Columbine, última dia de exibição, sessão das 13:30. Cheguei lá com 45 minutos de antecedência e os ingressos já estavam esgotados. Fiquei numa fila de espera pra poder sentar no chão. Eu não estou mais na idade de ficar em fila de festival, sabe? Já teve tempo em que eu não me importava de ser espremida contra a porta do Cine Brasília por mais de uma hora, porque achava divertido aplaudir e vaiar filmes ali na competição. Hoje, eu prefiro pegar uma matinê de meio de semana e repartir a sala inteira com uns outros 10 desocupados. Essa é a vida. Fila de mostra de cinema em São Paulo, então, não tem quem possa. É um desfile de modernos, descolados, superfashion que enjoa. Atrás de mim, na fila de espera, tinha um grupelho de semi-celebridades da vida cultural paulistana só falando de suas boas relações intelecto-culturais. Aos berros e gargalhadas, claro, que quanto mais gente importante você conhece, mais alto tem que anunciar. Levei vários empurrões dessa gente boa também. Mas tudo bem, entrei no cinema, fiquei muito confortável na escadaria e assisti meu Michael Moore. Muito bom, o filme. Não teve surpresa pra mim, já que conheço bem o estilo do moço. Mas o Columbine parece um pouco mais sério que os esquetes do TV Nation, mais interessado em resultados do que o Roger & Me. Amanhã escrevo sobre ele. mais um chororô de bel seslaf outubro 19, 2002 Eu gosto de histórias de suicídio, eu não gosto é de histórias de conversão. mais um chororô de bel seslaf outubro 18, 2002 Ah, sim. Outra enquete. Afinal, o rapaz da bolha morreu ou não morreu depois de tocar o tronco? O médico já tinha dito que talvez, quem sabe, era possível que o sistema imunológico dele já tivesse se restabelecido um pouco, tipo. Mas lembrem-se de que ele não só tocou o tronco, como também saiu do filme a cavalo levando a menina pra algum mato. É óbvio que ele acabou tateando superfícies bem mais ricas em germes e bactérias. Dê a sua opinião. Aqui, você escolhe o final. mais um chororô de bel seslaf outubro 17, 2002 Os primórdios da minha socialização foram um completo desastre. Todas as minhas amigas foram embora. Eu não tenho dúvida de que foi este mau começo que me transformou na pessoa mais socialmente inábil do planeta, fora os obviamente patológicos. Veja só se não é pra ter pena de mim: Do jardim da infância não lembro de muita coisa, a não ser o labirinto no parquinho, que cheirava a xixi, de fugir da diretora, que apertava e torcia nossas bochechas, e do Santiago, um menino lourinho de quem eu gostava. Revi uma foto dessa época outro dia. Toda a turma vestindo a camiseta vermelha do uniforme, menos o Santiago. O Santiago estava de verde. Deve ter ido longe, esse menino. Acabou o jardim e fui pro Santo Antônio fazer o pré. Logo fiz uma melhor amiga, a Anelise. Pelo que me lembro, a Anelise tinha sofrido algumas esquisitices na família e por isso estava sendo alfabetizada aos 14 anos. Não me parece muito plausível hoje, é verdade. Mas, com certeza, a Anelise era mais velha, pelo menos bem mais alta que eu. Magra, cabelo castanho nos ombros. Estávamos sempre juntas. No fim do ano, ela foi embora de Brasília. Na primeira série, conheci a Danielle. Ela era branca e sardenta, de cabelo preto e enrolado. Um dia fui à casa dela e ela me serviu gelatina cremosa. Eu adoro gelatina, mas, cremosa, nem pensar. Engoli tudo de qualquer jeito, pra ser educada, e ainda disse ‘já pode casar’. Até hoje sinto a vergonha desse momento. Eu e a Danielle viramos as melhores amigas da primeira série. Estávamos sempre juntas. No verão, a família dela se mandou pra Roma. Aí veio a segunda série e, com ela, a Flávia. Ah, da Flávia eu sinto falta até hoje. Ela era loura e gordinha, tinha um irmão chamado Clóvis, e dizia que era prima do Ney Matogrosso porque era de Campo Grande, ou Cuiabá. A família inteira da Flávia me adorava. Passei muitos domingos na casa do avô dela. Eu e a Flávia nos entendíamos tão bem. Estávamos sempre grudadas. Em dezembro, a família voltou pra Cuiabá, ou Campo Grande. Realmente, como eu poderia criar laços? Na terceira série, meus pais resolveram que eu estudaria de manhã. Foi a derrocada total. Mesmo com essas terríveis perdas, eu ainda conseguia ser, à tarde, a dona da bola. Durante as aulas, eu era do tipo que sempre sabia, mas nunca dava a resposta certa; soprava pra quem estava do lado. Porém, no recreio, eu virava uma tirana de trancinhas: as meninas só faziam o que eu mandava, só brincavam do que eu brincava, não sei porquê. Fui ver, e de manhã já tinha outras chatonildas exercendo esse papel. Resultado: me recolhi, me calei, me cheguei na mais certinha, engordei, saí do balé, engordei mais, riram de mim, eu fazia piano, ninguém me tirou pra dançar, nunca um correio elegante, só chegavam perto pra pedir desenhos, ou cola na prova, eu era péssima na educação física, eu odeio queimada, comecei a ler crônicas, as meninas já tinham peito, eu não, meu cabelo era seboso, o Newton disse que eu era mais bonita que a menina mais feia da sala, todo mundo fazia farra nas aulas de recuperação, eu passava direto, fiquei menstruada na viagem de oitava série, não quis descer a escadaria na formatura, nunca mais ninguém soube de mim. Aceito tapinhas nas costas. mais um chororô de bel seslaf Estou estranhando um pouco. O nervocalm só era lido por gente conhecida, até que a menina má falou bem dele no dela. Aí vocês apareceram nos comentários, pessoas novas. Eu estranhei, sim. Elesbão e tudo mais. E se vocês forem ficar, bem que podiam mandar um e-mail de apresentação, especialmente se forem gentes de Brasília que já passaram pela minha vida, talvez. Depois do primeiro grau, eu nunca mais tirei foto de final de ano na escola, não badalava perto da cantina no recreio, nunca apareci em festas, não fui às formaturas - aliás, acho que o meu nome nem constava da lista de formandos de jornalismo do segundo semestre de 99, cujo convite não recebi, nunca nem vi. Por não deixar registro, eu sempre pensei que, no futuro, seria como se eu nunca tivesse existido. E se algum ex-colega tivesse qualquer memória nebulosa sobre mim, ia ter que creditá-la àquelas horas de sono sobre a carteira. Eu não deixei, mas vivo procurando registros deixados por ex-colegas, no google, na mirabilis. Outro dia achei uma ex-amiga de infância numa foto de coluna social, entre outras representantes da juventude dourada brasiliense. Eu a conheci quando passei a estudar de manhã, na terceira série. Cheguei toda tímida no primeiro dia de aula, sem conhecer ninguém, e a professora me levou pra uma carteira bem no meio da fila do meio. Do lado, uma menininha branquela, magrela, estava tirando o material da pasta e arrumando sobre a mesa de uma forma impressionante: a régua retíssima no topo, o estojo de comprido no canto esquerdo, a caixa de lápis de cor ocupando exatamente o mesmo espaço no canto direito, tudo milimetricamente medido e impecável. Eu pensei “essa menina vai ser a minha primeira amiga”, e foi. Era a Ana Paula Valatino Tolendares. Eu ia na casa dela, ela ia na minha, os pais dela tinham trinta e poucos, os meus, quarenta e alguns, eu sentia vergonha. Fomos ver Namorada de Aluguel no cinema, apesar da mãe dela ter achado que era filme de putaria. Atravessamos a Casa do Terror do Park Shopping, e ela foi mais corajosa que eu. Ficamos juntas até a oitava série, já com outras cinco agregadas. No segundo grau, mudamos pro mesmo colégio, mas aí tudo degringolou, como, aliás... Bem, não nos falávamos. Ela ficou largadona. Eu a vi uma vez andando com o olhar perdido pela UnB, onde, acho, ela não estudava. Nunca mais. Até, claro, vê-la muito bem penteada, vestida e maquiada numa foto do Gilberto Amaral. Que será que aconteceu com a Ana Paula? Oki doki, me perdi totalmente neste texto. Depois falo do quanto eu me espanto com os novos comentários. mais um chororô de bel seslaf outubro 16, 2002 randes marcos de uma vida Tinha acabado de entrar na faculdade quando meus pais foram para a Itália. Na volta, contaram a história de um sapateiro que conheceram em Lucca, um sujeito muito inteligente, estudado e viajado. A companheira de viagem dos meus pais estranhou muito que um cara daqueles estivesse numa oficina de cidade pequena, mexendo com pregos e colas o dia inteiro. Ela pediu explicações, e ele deu: “Eu gosto de ser sapateiro. Foi isso que escolhi fazer, foi aqui que escolhi ficar”. Pela primeira vez na história do Bebelismo, a pergunta “então pode?” brilhou na constelação das possibilidades. Desde então, tenho sonhado com morros, cachorros e ovelhas. mais um chororô de bel seslaf Eu estou ranzinza e com vontade de escrever, o que não é uma boa combinação. Por isso resolvi copiar aqui um texto bem corny que escrevi há quase um ano, num momento de tédio na livraria e numa época em que o Efeito Sapateiro Italiano andava fazendo estragos no meu dia-a-dia. É enorme. ....... Dia desses eu estava assistindo tv a cabo quando dei de cara com o John Travolta jovenzinho, cabelão anos 70, shortinho amarelo, e totalmente esterelizado num complexo quarto plástico. Isso mesmo, o rapaz da bolha, o próprio. Que criança dos anos 80 não viu o filme do rapaz da bolha na sessão da tarde, no tempo em que os repetecos incessantes ainda eram aquelas comédias femininas dos anos 50, overdoses de Sandra Dee e Debbie Reynolds e bom-mocismo malicioso? Tempo em que eu faltava aula pra assistir a nonagésima reprise da Fantástica Fábrica de Chocolate. Tardes e tardes de Papai Batuta, Papai Pernilongo, Nossa Vida com Papai, Os Seus, os Meus e os Nossos? Eu tinha que rever aquilo. A história? O de sempre: menino nasce com esquisitíssima doença congênita que faz do seu sistema imunológico artigo de decoração, e estaria condenado à morte na primeira gripe, não fosse pela classe médica, sempre pensando a longo prazo, que elabora um moderno apetrecho esterilizador no qual o menino em questão poderá passar toda sua vida (vá lá, uns 80 anos) sem nenhuma preocupação com infecções e doenças – nem escola, viagens, abraços, passeios na cidade, sexo apressado, banheiro público, último pedaço do cachorro-quente que caiu no chão mas ainda dá pra comer, todas essas coisas de que a vida é feita. Médicos, há que adorá-los. Mas como o cinemão não está aí para filosofias, ele vira o rapaz da bolha e tudo é uma lição de vida muito linda. Então tá. Acontece que, mesmo na bolha, o Travolta arranja de se apaixonar, e a menina, a vizinha, está de partida. Que fazer, ó, que fazer? Ele pensa e pensa e vê ela pela janela cuidando de seu cavalo e pensa mais e decide deixar a bolha. É tudo muito simbólico. E é aí que entra a música, claro. Quando o menino da bolha dá um passo pra fora da bolha, a música ajuda a gente a entender que este é um momento emocionante. E a música, e os passos, e a emoção toda da coisa, eu confesso que caí bonito. Talvez porque a primeira coisa que o Travolta toca na vida seja o tronco de uma árvore. Foi uma grande escolha. Quando Travolta toca o tronco, Paul Williams já está cantando "Leave us alone, we'll live in the country / leave us alone, we’ll make it just fine". Não sei bem se foram os desafinos, as paradinhas, o tronco ou se foi mesmo a letra; o caso é que eu achei essa música simplesmente uma beleza. Que se há de fazer? Eu achei a música linda. Vi 3 reprises em 2 meses só pra ouvir ela de novo. Então lembrei do Napster. Umas 8 pessoas tinham a música ali, acreditem. O download não bichou no meio, deu tudo certo e agora ela está salva e disponível no meu winamp. Olha só como ela é: What would they say / if we up and ran away / from the roaring crowds / and the worn-out city faces? Would they carry on and on / when they found that we were gone? / Or would they let us go? Would they tag along / or would they know to Leave us alone / we’d live in the country / leave us alone / we’d make it just fine Happy in a one-room shack / and we’d not look back / now would we? What would they do / if they found that we were through / with all the little lies / and the downtown aggravations? That we’ve traded them away / for a quiet country day / that we have hoped to share? Would they try to find out / where we were wrong? Leave us alone / we’d live in the country / leave us alone / we’d make it just fine Happy in a one-room shack / and we’d not look back / now would we? What would they say / if we up and ran away? ran away. Eu tenho que dizer que estou viciada nessa música. Ouço umas 4 vezes seguidas e canto e depois volto pro computador pra ouvir de novo. Mas é a letra. É uma boa letra. Uma versão hipponga e paranóica do Casa de Campo, da Elis Regina. O Paul Williams só quer ficar tranqüilo num lugar bonito, sem dinheiro, sem trabalho, sem confusão de cidade por perto. O Paul Williams só que ser feliz, e eu também, oras. Problema é que a vida, assim vidinha como ela é, parece sempre nos empurrar pro caminho contrário. Enquanto a gente devia estar por aí tocando troncos, que é que a gente faz? Levanta cedo com o coração disparado pelo assustador, se espreme nos ônibus e trens, passa quase todo o dia em trabalhos chatos / odiosos / desgastantes / sem estímulo / sem perspectiva, se entedia, se esgota e se embrutece. Da vitrine do meu trabalho embrutecedor, vejo só gente correr de lá pra cá, muito suada num terno ou muito hesitante num salto. Vai ver a própria vitrine é a minha bolha, cada escritório outra bolha, cada sala de aula. E a gente vai aceitando, vai ficando, enquanto lá fora tem tronco e sol e riacho pra gente nadar, lua cheia, lua nova, vento, frio, o mar e as montanhas. E como está tudo errado mesmo, como o mundo está todo errado, eu volto pra casa depois de um dia de bolha cansada demais pra procurar um tronco amigo. Eu volto e me atiro na cama e ouço a voz esganiçada do Paul Williams, e penso que um dia eu também vou me cansar dos aborrecimento da cidade e dos rostos exaustos, e aí me mando pra ser feliz numa cabana. And i’ll not look back. mais um chororô de bel seslaf outubro 15, 2002 Eu odeio essa cidade que te olha com medo, te pede os documentos, te enquadra na câmera, te ficha na recepção. Eu odeio essa cidade que não pergunta "quem é?", só pergunta "é de onde?". Eu odeio essa cidade que não te deixa entrar, sinto muito, você não conhece ninguém. Eu odeio essa cidade em que não se pode sentar em uma mureta, que toda mureta tem dono, que pode ficar de pé, mas não sentado. Eu odeio essa cidade em que é vagabundo todo aquele que não está correndo de um lado para o outro. Eu odeio essa cidade em que entrar custa dinheiro, ficar custa dinheiro, sair custa dinheiro. Eu odeio essa cidade em que os patrões aterrorizam os empregados, os empregados aterrorizam os visitantes, os motoristas tratam mal os passageiros, os passageiros tratam mal o cobrador. Eu odeio o lixo da cidade, as propagandas da cidade, o tráfego de carros e de gente, a falta de verde, o excesso de palavras. Eu odeio a cidade. mais um chororô de bel seslaf outubro 14, 2002 Nada melhor que a poesia para as horas de auto-piedade. There's little in taking or giving, There's little in water or wine; This living, this living, this living Was never a project of mine. Oh, hard is the struggle and sparse is The gain of the one at the top, For art is a form of catharsis, And love is a permanent flop, And work is the province of cattle, And rest's for a clam in a shell, So i'm thinking of throwing the battle - Would you kindly direct me to hell? Dorothy Parker . Coda mais um chororô de bel seslaf Sim, eu estou novamente distribuindo currículos e alimentando preocupações. Dias de amargura nesse vlóguei. mais um chororô de bel seslaf Como era bom aquele tempo em que eu pensava em me matar pra fugir do medo, da dor e da fraqueza. Agora acho que vou ter de me matar, porque não consigo viver nesse mundo de contatos, emprego e dinheiro. Há muito mais tragédia no pragmatismo do que crê nosso teimoso romantismo. mais um chororô de bel seslaf outubro 13, 2002 Palavras que resumem meus últimos dias: doce, espera, calor e bruxismo. mais um chororô de bel seslaf A doutora Havanir, do Prona, não tem cara dessas executivas duronas porém devassas de filme pornô? Eu acho. mais um chororô de bel seslaf outubro 11, 2002 to dream, perchance to sleep Se o mundo fosse como é nos sonhos, viver seria muito mais estimulante. É tudo surreal, os diálogos não fazem o menor sentido, uma pessoa de repente vira outra de acordo com a sua conveniência, e assim é que deveria ser na realidade. Eu me sinto muito à vontade nos sonhos, muito melhor do que eu sou. Morar em São Paulo ameaça me tirar esse prazer, porque agora meus sonhos são tumultuados. Agora tem gente demais andando nas ruas dos meus sonhos. Meu sonho mais recorrente, e gostaria muito de saber o porquê, é com grandes ambientes fechados. Sempre sonho com shopping centers, parques de diversão, estacionamentos, aeroportos, casarões, mas bem diferentes de seus correspondentes reais. Talvez sejam todos labirintos, porque eu estou sempre me embrenhando por novos quartos e corredores obscuros, abrindo portas, achando caminhos. E os cenários! Se tem uma coisa da qual me orgulho é a cenografia dos meus sonhos. Já estive em brinquedos de parque de diversão que não poderiam existir nesse mundo; um dos meus shoppings era todo prata-azul e tinha um tobogã de água no lugar da escada-rolante central. E é cada detalhe, cada cor. Sonhar é maravilhoso. Mas é porque você está dormindo. mais um chororô de bel seslaf Já sonhei que andava sobre a água e que vivia debaixo dela, mas nunca sonhei que estava voando. Já sonhei com um cachorro que tinha cara de gente e morava no hall do elevador e sempre sonho que tem alguém tentando abrir a porta dos fundos do apartamento. Já sonhei várias vezes que dirigia um carro normal do banco de trás, e tudo sempre ia muito bem. Adoro sonhar que estou me empanturrando de comida, porque aí acordo saciada. Odeio sonhar que tem uma barata gigante deitada de costas debaixo da minha cama, porque aí acordo com a sensação de que algo horrível me espera. Sempre sonhava que estava na privada, e por isso fiz xixi na cama até os 7 anos. Já sonhei com o Freddy Krueger três vezes, mas sempre aquele Freddy Krueger engraçadinho dos filmes 2, 3, 4 e 5. Já acordei gritando duas vezes, já acordei chorando uma. Já despertei de um pesadelo que continuou porque meus cílios estavam grudados de remela e eu não podia abrir os olhos. Meu sonho mais delicioso tinha uma criatura de desenho animado descendo do céu para o centro de uma roda familiar, e meu pior pesadelo envolvia um personagem do Didi e o jingle de uma loja de pneus. mais um chororô de bel seslaf Aproveito este espaço público para declarar meu enlevado amor pelos lápis b. mais um chororô de bel seslaf Estou com uma mania involuntária agora de ficar reduzindo tudo que vejo, leio e ouço a uma única palavra. Me pego pensando “este filme é sobre a liberdade” ou “esta música é sobre o arrependimento”. Toda vez que isso acontece, me vejo forçada a dar uns cascudos na minha cabeça. É preciso reprimir esse tipo de pensamento. mais um chororô de bel seslaf outubro 10, 2002 Hoje fiz meu primeiro callback spam, idéia que tirei daqui. Liguei insistentemente a cobrar pros quatro números de DDI 16 (onde é isso?) que o spammer, vendedor de listas de e-mail para outros spammers, disponibilizou ali. Finalmente, eles deixaram completar a ligação. Segurei a moça no telefone durante 3 minutos, primeiro mostrando interesse, depois fazendo discurso. Encerrei dizendo, claro, que todo spam é burro e que já estava satisfeita por ter feito eles pagarem aquela ligação. Foi meu mais ousado ato de guerrilha até hoje. mais um chororô de bel seslaf outubro 09, 2002 Pelo menos sou míope, meu nariz não funciona, o meu peito não cresceu e todo mês tenho dores no lado esquerdo do rosto. Mas passa logo com dorflex. mais um chororô de bel seslaf Sou muito saudável. Nunca fico e nunca fiquei doente. Minhas febres mal chegam a 38 graus. Não tive rubéola, sarampo, caxumba, pneumonia. A catapora só veio porque as duas irmãs também pegaram, e não foi mais que uma coceira prolongada, curada por banhos coloridos. Não sofri nenhum acidente. Nunca um braço quebrado, nunca um dedo pendendo, nunca um supercílio aberto, nem um joelhinho ralado eu tive. Minhas gripes duram quatro dias: o primeiro pro nariz escorrer, o segundo pra garganta doer, o terceiro pra tossir, e o quarto pra fazer manha. Sou muito saudável. É frustrante. Qualquer um pensaria que essa estabilidade física seria compensada por uma instabilidade mental. Mas não. Não sou esquizofrênica, esquizóide, paranóica. Não dependo de álcool, cocaína, remédios. Não me corto toda com gilete, não saio gritando na rua. Considerando a história da família, eu bem podia emplacar uma psicose maníaco-depressiva. Mas não. Nunca uma crise de mania. Nem mesmo oficialmente deprimida eu consegui ser. Sou distímica, disseram os doutores. Distímica. Só uma desanimada em tempo integral, deprimida de segundo escalão. Não, nem isso. Sou muito saudável. mais um chororô de bel seslaf A única coisa interessante que saiu dos meus 5 meses de psicanálise fraudiana foi a analista ter adivinhado porque eu chorava amargamente no final de Léolo. Era de inveja. mais um chororô de bel seslaf outubro 08, 2002 uma análise eleitoral ou ecos do meu sábado infantil Era uma vez uma baratinha. No trem lotado, não sabe quem surrupiou sua carteirinha. Por muito pouco não foi refém. Nas eleições, essa baratinha, indignada, como convém aos candidatos de dura linha, às urnas foi escolher alguém. “Quem vai levar o da senhora baratinha, que tá cheia de bandido e cansada de abobrinha? Passem, passem, cavalheiros, passem todos, sem tardar, que, prometo, o mais reaça o meu voto vai levar.” Naquele momento, passou bufando um quatro-olhos de barba preta, ia seus passos cronometrando, gesticulando, todo ranheta. “Careca que vai passando, quer o meu voto levar? Nem sei do que está falando mas é de impressionar! Sou porém muito sensível e medo tudo me traz. Diga primeiro, Enéas, como é que você faz.” “Obrasilestáconduzidoporumacorjadementecaptos larápiossanguessugaséumjoguetesórdidorepugnante pelaordemsoberaniaordemnacionalismoordemmordem meu nome é Enéééééééééééas!” “Este merece o meu voto, rosnando, fazendo careta. Suas idéias adoto com ele ninguém se meta.” - THE END - mais um chororô de bel seslaf outubro 05, 2002 Passei a tarde ouvindo a História da Baratinha, a Goela do Inferno e, finalmente, Saltimbancos. Este último, era ouvindo e chorando, ouvindo e chorando. É lindo, eu não agüento. mais um chororô de bel seslaf outubro 04, 2002 Eu adoro a língua inglesa pela quantidade de Bs, Ls e Gs, e por poder escrever uns sete adjetivos sem vírgula antes do substantivo. Eu adoro a língua portuguesa pelas flexões dos verbos e por poder usar quantas negativas eu bem quiser numa mesma frase. mais um chororô de bel seslaf Minha irmã me escreveu sobre um grave dilema que anda enfrentando: ela não consegue decidir o que gostaria de ver escrito em sua lápide. É um problema. E por isso vamos propor um exercício-enquete aqui no nervocalm. Mas primeiro deixa eu falar de mim. Não foi nada difícil decidir o que eu escreveria na minha própria lápide: o meu nome, só. Se eu morrer antes dos 30, então também gostaria de colocar as datas de nascimento e morte, que fica romântico. Quem estiver passeando no cemitério vai ler e se perguntar sobre o motivo de uma moça ter morrido tão jovem, vai conjecturar e fantasiar, e logo minha vida terá sido interessantíssima. Se eu morrer velha, é melhor omitir as datas. Mesmo porque, depois de tanto alardear meu provável suicídio, eu não quero ver ninguém rindo do meu fracasso. Antes de continuar, quero lembrar que não fui eu que comecei! Quem mandou, sis, cutucar meu assunto preferido? Agora vou ter que falar de todos os meus planos para a morte – "a minha morte / que vem porque eu quero", já falava o Zaratustra. É que eu tenho uma curiosidade comichante* e uma resoluta exigência pra quando eu passar desta pra melhor (taí um ditado popular que faz sentido). A curiosidade, que já foi mais aguda, é saber com que roupa eu seria enterrada se morresse hoje. Já perguntei várias vezes pra minha família, porque tinha um desejo genuíno de saber que roupa eles escolheriam. Meu guarda-roupa é tão pouco apropriado, tênis sujos, blusinhas adidas. Ao mesmo tempo, se me botassem num vestido todo branco e diáfano, não seria eu naquele caixão! Mas a família sempre se recusou a aplacar minha dúvida. Tudo que ouvia era ‘deixa de besteira, menina!’. Vou morrer sem saber. A exigência, e esta é seríssima, é não ter nenhuma manifestação religiosa no meu funeral. Já tá todo mundo avisado: nada de vela, padre, reza, missa de sétimo dia. Seria muito desrespeitoso para com a defunta. Além de trabalhoso, claro. Se alguém burlar o meu pedido, serei obrigada a vir puxar o pé dessa pessoa todas as noites, o que vai acabar com o meu descanso eterno. Agora, eu e Camila queremos saber de vocês. É o concurso de lápides do nervocalm. Escreva a sua e ganhe um pirapito de cereja e uma foto autografada do Dr Kevorkian. Escreva djá. *a palavra comichante não existe, mas era exatamente o que eu precisava dizer. mais um chororô de bel seslaf outubro 02, 2002 grandes subtítulos da história do cinema The Fearless Vampire Killers or pardon me, but your teeth are in my neck Dr Strangelove or how i learned to stop worrying and love the bomb mais um chororô de bel seslaf título desta redação: minhas fúteis indignações Eu tenho umas implicâncias gozadas. Me irrito, por exemplo, quando gente comum erra a melodia na hora de cantar. Uma nota que seja já me põe reclamando e corrigindo a coitada da pessoa. Não suporto que se desvie a melodia. Também detesto quando adaptam o gênero cantado ao gênero do cantor, proibindo uma mulher de cantar pra uma mulher, um homem pra um homem, não importando como a música foi originalmente escrita. É ridículo. ElE já não gosta mais de mim / mas eu gosto delE mesmo assim? Que pena. Não. Pouca coisa me dá tanta gastura quanto ouvir alguém soltando aquela pérola do "que seja eterno enquanto dure". Sim, porque como se não bastasse recorrer a um clichê e a um poetinha, quem repete este verso sempre erra, e troca infinito por eterno. É um deslize lógico que eu simplesmente não posso engolir. Todas as vezes em que eu ouço isso – e como eu ouço isso! – eu bufo e resmungo e brigo "como é que pode ser eterno se tem prazo de duração?! argh!". Brigo com a televisão, com o rádio, o jornal. Quem está perto ri de mim. Mas é que realmente tem coisas que a gente não pode aceitar nessa vida. Outro dia, vi na televisão uma garota dizendo que tinha gostado muito do Fausto do Goethe, que "é a história de um homem que vende a alma ao diabo pra ter tudo que sempre quis". Ah, não. Não, não, não, não. Finco a pata bestial aqui. O Fausto, justamente, não queria nada. Duvidou que o Mefistófeles fosse capaz de mostrar grande coisa pra ele. Só perderia a tal da alma se finalmente parasse e admitisse "Oh... isso foi legal". E agora vem um programa adolescente querendo vender pras novas gerações a idéia de que esta é mais uma história do bon-vivant ambicioso em busca de poder? Vê se eu teria passado noites e noites em claro com este livro por um roteirinho chinfrim desse. Não deixo. Qualquer que tenha sido o final da história, o Fausto vendeu a alma ao diabo só pra provar que a vida é uma merda, e disso eu não abro mão. ... A minha implicância mais típica é mesmo com as palavras. Tem umas que eu não uso, não processo, não aceito. É que eu sou propensa ao humptydumptying – pra mim, as palavras só significam o que eu sinto que elas significam. Tá, o que eu quero. mais um chororô de bel seslaf outubro 01, 2002 Ontem estive no meio de uma reveladora discussão sobre o jeito brasileiro, estrelando minha cunhada, que acaba de voltar de um ano de Europa e planeja se tornar cidadã londrina, meu marido uruguaio, que mora aqui desde bebê mas não sente em si o espírito nas-coxas deste país, e meu cunhado chileno, que já rodou muito e acha o Brasil o melhor lugar do mundo pra se viver, por causa, vocês sabem, da contagiante alegria deste povo. Eu fiquei calada porque, como candanga que nunca foi longe, mas faria qualquer negócio pra viver em um lugar onde não é preciso tentar adivinhar com quantos beijos se cumprimenta, achei que a minha perspectiva seria a menos interessante da história. mais um chororô de bel seslaf Ontem, no metrô, um respeitável japa deu de cantar em louvor aos céus. Dentro do vagão, ele até que modulou bem o volume, mas foi só descer na estação Santa Cruz pra soltar o pastor adormecido que existia dentro dele e ir berrando jesus é meu senhor, é meu redentoooor / jesus é meu senhor, é meu redentooooor escada rolante acima, o que eu acompanhei com uma variada gama de caretas e sons de mofa. Alguém já viu um ateu ir gritando jesus, mas que horrô / foi alguém que inventôôô por aí? Não. Nossa chatice é contida. Reconheço que acabei de contradizer a afirmação acima com esse post. mais um chororô de bel seslaf Outubro é o mês mais bacana que tem, fala a verdade. mais um chororô de bel seslaf |
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