nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


outubro 31, 2003  

Há muito tempo eu tive uma idéia para um conto erótico, que é a seguinte: uma mulher morena, bonita, mas não linda, tem um terceiro seio, do tamanho de um dedal e perfeito, 10cm abaixo do pescoço, entre os outros dois. Eu não fui muito além disso. Só sei que essa mulher andaria por aí de decote numa boa, com o terceiro seio exposto, e todos os homens ficariam enlouquecidos. Ora, e quem não ficaria? De qualquer forma, bobagem, eu nunca escrevi o conto.

Mas eu acho que nesse tipo de coisa não se pensa impunemente (eu não acredito em deus, mas acredito em punição divina quando me convém) e há três dias eu vi nascer um peitinho no nó do meu mindinho esquerdo. É isso mesmo: um machucado em forma de peitinho, só faltando o marrom do mamilo. E como um peitinho só não faz verão, hoje, como era de se esperar, está brotando outro igual no nó do indicador da mesma mão. Se nascer um terceiro, aguardem por aí um conto de terror.

mais um chororô de bel seslaf


outubro 30, 2003  

Difícil ser funcionário
nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos,
pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
que me deixa assim.
Cinemas, avenidas
e outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
o luto desta mesa,
é o regimento proibindo
assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitaria
tanta roupa preta.
Tão pouco essas palavras
funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
que nunca escreve cartas.
Há uma garrafa de tinta
que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
as caixas de papéis;
túmulos para todos
os tamanhos do meu corpo.

Não me sinto correto
de gravata de cor,
e na cabeça uma moça
em forma de lembrança.

Não encontro palavra
que diga a esses móveis.
Se eu pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea,
como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
pedindo conselho.
João Cabral de Melo Neto

mais um chororô de bel seslaf


outubro 27, 2003  

Se os livros de cartuns do Quino não estão entre os melhores livros de poesia do mundo, eu não sei mais o que é poesia.

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outubro 20, 2003  

Rá. Segundo o Gematriculator, este meu vlóguei é, prestem bem atenção, 98% bom . Bom, aqui, sendo O Bem, o oposto dO Mal. Ele é 98% bom, número que revela a presença de deus no meu texto, que tal? E adivinhem em que texto meu o Gematriculator achou o incontestável selo de aprovação de deus? Ora, ora, na minha defesa da eutanásia! E adivinhem quais frases desse texto foram destacadas como as mais importantes aos olhos de deus? "Bem, já morreu, ninguém vai ficar sabendo" e "Ora". Preciso dizer mais? Se a minha idéia é 98% boa para deus, deus só pode estar do meu lado. Está provado: deus é a favor da eutanásia. Salve, São Kevorkian!

Os 2% de maldade devem ter ficado por conta do Sílvio Santos.

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outubro 12, 2003  

Olha, se eu não me importasse tanto com clichês, eu seria muito mais tranqüila e feliz. Mas eu me importo, fazer o quê? É só ouvir um que eu já saio praguejando e resmungando comigo mesma como uma velha chata. É uma sina infernal, essa, porque clichê é uma espécie que só se reproduz. É claro que ele vai me vencer um dia. Vejam só esses dois aqui:

Quando se discute virgindade (ainda se discute virgindade!), quaisquer que sejam as opiniões, tem sempre alguém pra levantar e dizer: "Mas eu respeito muito essa escolha. Acho muito bonito você se guardar e se preservar." Ah, deixa de conversa. Não é bonito porra nenhuma. Eu não respeito essa escolha. Eu acho que você tem mais é que trepar com um monte de gente de todas as cores enquanto ainda é jovem, solteiro e bem-disposto. E não é "pode", é "tem que". Este é o conselho que eu darei aos meus filhos. Quem se preserva é conserva de pepino.

Segundo: discussão sobre eutanásia (e, de quebra, suicídio). Não tem um cristão que eu veja que não vá tentar, tipo assim, querer talvez dar uma opinião, mas veja bem, é só uma opinião pessoal, tá?, começando com: "Este é um assunto muito complicado." Mas que complicado, o quê? Não é complicado nada. É simplíssimo. Se você não tem direito de dispor da própria vida, oras, pra que você vai esperar ter direito de comer, dormir, votar, tirar férias remuneradas, passar no caixa preferencial do supermercado, ultrapassar o sinal vermelho de madrugada? Qual seria o sentido da vida, assim? E se o problema é decidir sobre a morte de alguém que está vegetando incomunicável, pára com essa coisa de ficar pensando "mas e se...? e se...?" Depois de morto, não tem "e se". Pois se a coisa pudesse ter outro desfecho... bem, já morreu, ninguém vai ficar sabendo. Ou por acaso acontece de, imediatamente após desligarem os aparelhos, descer um painel luminoso com um Sílvio Santos acoplado, pra anunciar e rir de tudo que a pessoa perdeu? "Ra-ráaaiiiiii! Se Fulano não tivesse morrido agora, ele teria acordado do coma daqui a dois meses, saído do hospital direto pra correr a maratona da São Silvestre, feito uma brilhante carreira científica, descoberto a cura do câncer e da unha encravada, escrito o romance do século, casado com seu grande amor, tido 5 filhos belos, saudáveis e geniais, vivido mais 19.872 dias de felicidade plena, e ganhado uma bicicleta caloi e um tênis montreal!" Ora.

Controlem o proliferamento dos clichês, eu imploro, porque eu não agüento mais passar meus dias resmungando.

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outubro 10, 2003  

É, pois é, eu assisti Mucambas Assujeitadas. Shame on me. Mas teve uma coisa hoje que me deixou aqui matutando.

Quer dizer que - marido que bate em mulher é uma coisa horrível, inaceitável; a sociedade fica indignada; exige o endurecimento das penas para semelhantes calhordas; nada de serviço comunitário! 50 anos de cadeia, com torturas!; o marido violento é o maior vilão da história; ele tem de ser punido exemplarmente; ele morre; foi bem feito. Bacana.

Mas - pai que invade quarto da filha, depois de passar dias obcecado com a idéia de que ela é puta; avança pra cima dela, que está seminua na cama; dá-lhe 20 cintadas, arrastando-a pelo chão e deixando-a ainda mais seminua; vai andando por um saguão lotado agarrado nela, puxando os cabelos dela sofregamente e gritando "é minha filha! é MINHA filha! é MINHA!", até derrubá-la no chão, humilhada; joga-a sobre outra cama, de modo que ela caia com a bunda descoberta virada pra ele; decreta que ela não mais sairá do quarto; proíbe a mãe de consolar a filha; limpa a baba que ainda escorre; isso pode; isso é certo; foi bem feito. Tá. Então tá. Entendi. É.

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Puxa vida, o ano mal começou (como se sabe, o ano começa em agosto) e eu já estou torcendo pra ele acabar logo (como se sabe, o ano acaba em dezembro) só pra poder maldizer o fato de que vai começar tudo de novo (como se sabe, tudo de novo começa em janeiro, e não acaba nunca).

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outubro 06, 2003  

It's your birthday, love
apesar do quiabo chocho
da minha palavra de 75 pontos
e do presente ser meu.

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outubro 03, 2003  

Há quase uma semana tentando digerir o telefonema mais absurdo, surreal e absolutamente incompreensível que eu já recebi, me pus a pensar em um monte de abobrinhas, que agora não vêm ao caso. O caso é: no passado, as pessoas eram pra mim como espinhos – machucavam, como machucavam, e espetavam meu pobre coração juvenil. Hoje, na maturidade (cof), as pessoas são pra mim como monólogos teatrais – não sei como tem gente que entende e, ainda por cima, gosta.

mais um chororô de bel seslaf
 

Mas uma coisa que me faz feliz é cantar
recebe o teu poééééta, ó bééééla
abre teu coraçããão
aaaaaabre teeeeu coração
ou eu arrombo a janela!

Então, com licença.

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