| nervocalm gotas (vol.1) |
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setembro 25, 2002 Impressionante como meu cérebro funciona debaixo do chuveiro. É lá que eu tenho as melhores idéias, é lá que ensaio diálogos que nunca acontecerão, e é lá que as memórias mais empoeiradas reaparecem pra me assombrar. Agora mesmo, debaixo do chuveiro, minha cabeça começou a cantarolar a música tema da novela Fera Radical, me fazendo reviver toda a angústia dos meus últimos dias de aulas de piano. Tenho duas irmãs, e uma mãe que nos presenteou com histórias da Condessa de Ségur. É claro que nós, meninas exemplares, tínhamos que fazer piano e ballet. Começamos a vestir tutu com 3 ou 4 anos, e a martelar teclas com 5 ou 6. Minha mãe devia ser louca se realmente achava que eu ia dar uma bailarina. Fui, claro, a primeira a largar a sapatilha. Minhas irmãs, espertas que eram, disseram não ao piano rapidinho. E eu, querendo mais que tudo agradar à mamãe e já morrendo de culpa por ter desfeito seus sonhos de bailarina, fiquei presa às aulas de música. A professora de piano morava na minha quadra, vizinha de porta da minha tia e da minha avó. Mamãe aproveitava as aulas semanais pra fazer uma visita prolongada, enquanto eu sofria no apartamento ao lado. Saíamos de casa pouco antes das 6 da tarde. A aula começava às 6:30. E essa espera de meia-hora, na casa de tia Dodó, era a maior angústia que eu até então conhecia. Na sala, a televisão estava sempre ligada no começo de Fera Radical. Quando tocava a música de abertura, logo depois do resumo do capítulo anterior, eu tremia. Sabia que já deviam ser 6:10 e meu vexame estava próximo. Torcia pra nunca chegar o comercial porque acreditava, de certa forma, que era ele quem fazia o tempo passar; se a novela continuasse e continuasse e continuasse sem comercial, seria sempre o primeiro bloco, sempre 6 e pouco. Mas ele chegava e já eram 6:20. Meu coração batia disparado, eu me afundava no sofá. A Malu Mader era uma motoqueira que morava em uma casinha de sítio com um lago na frente. Eu tentava desesperadamente me transportar até ali. E aí eram 6:30. Eu me dirigia ao apartamento vizinho como um prisioneiro nu na frente dos oficiais fardados. Mal tocava a campainha. A professora atendia com o rosto cansado de um dia inteiro de aulas sofríveis. O apartamento dela era escuro e pesado: cortinas grossas, sofás imponentes, papel de parede estampado, quadros, cristais, bibelôs. Uma cachorrinha minúscula latia finíssimo toda vez que sentia um movimento. Era velha e manchada como o resto da decoração. Enquanto eu martelava e errava, via as caretas da professora pelo canto do olho. Não a culpo. O telefone sempre tocava durante a aula, e apesar de haver 2 filhas e 1 marido escondidos nas demais dependências a essa hora, nenhum deles jamais atendeu. O som das minhas notas tortas brigava com os toques histéricos do telefone, deixando a professora enlouquecida. Depois de uns 15 trins, ela levantava bruscamente, resmungando. A cachorra se assustava e latia. A professora gritava em direção aos quartos “é pra fulana!!”, e voltava ainda mais irritada e exausta que antes. Na parede, tinha um quadro da fase azul de Picasso, onde eu buscava conforto. Minha mãe sempre falava da fase azul de Picasso. Também tínhamos um em casa: um homem azul na mesa azul de um bar azul, com uma caneca na frente. A caneca está tampada ou de cabeça pra baixo? É fechada. Eu nunca entendi. Um dia, finalmente tomei coragem e disse pra minha mãe que não queria mais fazer piano. Não me lembro bem de como foi, mas ela deve ter ficado arrasada. Nosso amado piano Fritz Dobert de madeira caramelo continuou morando com a gente por muitos anos. Às vezes me sentava nele pra tocar umas musiquinhas tradicionais do livro do Mário Mascarenhas. Olhos Negros era a minha preferida, caprichava na interpretação – andante no começo, allegro no final. Dos métodos Leila Fletcher eu nunca quis me desfazer. Eles eram cheios de ilustrações antigas, muito boas de colorir. mais um chororô de bel seslaf |
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