nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


setembro 06, 2002  

Quando perguntei no Chepooka sobre a profissão que levaria os leitores mais rapidamente ao suicídio, pouca gente respondeu. Camila, minha superpoderosa irmã, apresentou o melhor caso e quase me convenceu de que a pior profissão do mundo é a de ascensorista.

“Se está quente, coitado, terá que suportar o fedor azedo do suor das centenas de passageiros que entupirão sua cabine. Gordos pinguentos, motoboys sem desodorante e o perfume doce calda-de-açúcar das mulheres peruas olfativamente prejudicadas. Se estiver frio, terá que passar o dia com as unhas roxas porque, é claro, o condomínio não vai diminuir, quem dirá desligar, o ar condicionado, a 15º C. Ser ascensorista também prejudica as faculdades intelectuais - basta reparar nos volumes de Sabrina, Júlia e Bianca que pairam nas mãos das mulheres de pés inchados, sentadas no banquinho. Quando banquinho há, diga-se de passagem. Vontade de ir ao banheiro, nem pensar, só com hora marcada. Flatulência? Garantia de um dia inteiro de tortura, caretas disfarçadas e contorcionismo. Mas o pior, o pior mesmo, é ser inteiramente ignorado como ser humano e saber que seu trabalho é absoluta, inteira e inapelavelmente inútil.”

Camilho também colocou em segundo lugar, empatada com vigia noturno, a profissão de tecladista de churrascaria. Por muito tempo eu acreditei que pianista de bar fosse a profissão mais triste do mundo, culpa, talvez, de um filme francês que eu vi. Mas aí eu fui casar com um guitarrista e não posso falar mais nada.

Outra que respondeu foi a Letícia, que deixou de acreditar que vida de puta é difícil, é difícil como o que, e agora vota em qualquer função exercida em hospital, especialmente na emergência. Dona May, que freqüenta a sala de literatura do terra, fez uma piada com coveiros. E o Fernando, meu colega de livraria, disse muito espertamente: “talvez eu possa classificar o meu [emprego] como aquele que me levaria mais rapidamente a um homicídio”. Arrá! Eu testemunharia a favor do Fernando.

Como já contei pra alguns amigos, o emprego que me levaria mais rapidamente ao suicídio seria qualquer um em que se ouvisse a frase “reunião de planejamento estratégico”. Sem dúvida, eu pulava da janela da sala de reuniões, espetáculo e tudo. Been there, almost done that. Nem ter uma família megalômano-sociopata como patrões em outro emprego foi pior que escutar 8 horas de marquetês por dia nesse. Quoth the raven, “Nevermore.”

mais um chororô de bel seslaf