nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


outubro 31, 2002  

Eu detesto salão de beleza, já disse isso? É o lugar mais desconfortável do mundo pra mim. Primeiro, porque eu não gosto de fazer as vezes de sinhazinha, e é só eu pisar no salão pra virem com uma saraivada de “quer café? água? chá? suco? refrigerante? tem certeza? revista? revistinha? massagem? minha eterna servidão?” que eu não agüento. Fico só no “não, obrigada. não, obrigada. não, obrigada. obrigada, obrigada, obrigada”. Obrigada é a palavra que eu mais uso no salão. Até quando me cobram eu respondo obrigada, de tanta culpa.

O segundo motivo é que, pra não atrapalhar a cabeleireira (ô, palavra), eu preciso tirar os óculos, e aí eu fico sentada a uns três palmos do espelho sem enxergar nem mesmo a minha própria cara. É uma situação ridícula. Eu não sei pra onde olhar e, mesmo se soubesse, não adiantaria nada. Quando estou sem lentes, meu maior medo é que alguém faça algum gesto pra mim, tente alguma comunicação visual, sabe como é? Eu não vou perceber, não vou responder, e a pessoa, crente que eu vi tudo, vai achar que eu sou alguma doida. Então, pra ficar bem claro para todos os presentes que eu sou míope, e não distraída ou retardada, eu tenho o seguinte método: fico ostensivamente abrindo e fechando e rodando os óculos nas mãos e, de quando em quando, também me fixo em algum ponto, aperto bem os olhos, fico assim por alguns segundos, depois faço uma cara de desalento pelo esforço inútil. Não sei se funciona.

Mas o motivo principal da minha aversão é que salões de beleza são lugares pra se conversar, e nisso, que surpresa, eu não sou nada boa. Eu tenho certeza absoluta de que todos os funcionários do salão me recriminam pelo meu silêncio. Eu fico ali olhando pro meu colo enquanto a moça penteia, parte e corta meu cabelo, fingindo estar perdida em pensamentos importantíssimos, mas eu sei que a cabeleireira e a assistente e as manicures e os coloristas estão todos balançando as cabeças e fazendo tsc-tsc. Aquele silêncio em volta e a minha cabeça cheia de besteira. Como eu torço praquilo acabar logo. Como eu detesto salão.

(Só uma concessão: gosto de sentir a navalha cortando o cabelo)

mais um chororô de bel seslaf