nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


outubro 16, 2002  

Eu estou ranzinza e com vontade de escrever, o que não é uma boa combinação. Por isso resolvi copiar aqui um texto bem corny que escrevi há quase um ano, num momento de tédio na livraria e numa época em que o Efeito Sapateiro Italiano andava fazendo estragos no meu dia-a-dia. É enorme.

.......

Dia desses eu estava assistindo tv a cabo quando dei de cara com o John Travolta jovenzinho, cabelão anos 70, shortinho amarelo, e totalmente esterelizado num complexo quarto plástico. Isso mesmo, o rapaz da bolha, o próprio. Que criança dos anos 80 não viu o filme do rapaz da bolha na sessão da tarde, no tempo em que os repetecos incessantes ainda eram aquelas comédias femininas dos anos 50, overdoses de Sandra Dee e Debbie Reynolds e bom-mocismo malicioso? Tempo em que eu faltava aula pra assistir a nonagésima reprise da Fantástica Fábrica de Chocolate. Tardes e tardes de Papai Batuta, Papai Pernilongo, Nossa Vida com Papai, Os Seus, os Meus e os Nossos? Eu tinha que rever aquilo.

A história? O de sempre: menino nasce com esquisitíssima doença congênita que faz do seu sistema imunológico artigo de decoração, e estaria condenado à morte na primeira gripe, não fosse pela classe médica, sempre pensando a longo prazo, que elabora um moderno apetrecho esterilizador no qual o menino em questão poderá passar toda sua vida (vá lá, uns 80 anos) sem nenhuma preocupação com infecções e doenças – nem escola, viagens, abraços, passeios na cidade, sexo apressado, banheiro público, último pedaço do cachorro-quente que caiu no chão mas ainda dá pra comer, todas essas coisas de que a vida é feita. Médicos, há que adorá-los. Mas como o cinemão não está aí para filosofias, ele vira o rapaz da bolha e tudo é uma lição de vida muito linda. Então tá.

Acontece que, mesmo na bolha, o Travolta arranja de se apaixonar, e a menina, a vizinha, está de partida. Que fazer, ó, que fazer? Ele pensa e pensa e vê ela pela janela cuidando de seu cavalo e pensa mais e decide deixar a bolha. É tudo muito simbólico. E é aí que entra a música, claro. Quando o menino da bolha dá um passo pra fora da bolha, a música ajuda a gente a entender que este é um momento emocionante. E a música, e os passos, e a emoção toda da coisa, eu confesso que caí bonito. Talvez porque a primeira coisa que o Travolta toca na vida seja o tronco de uma árvore. Foi uma grande escolha.

Quando Travolta toca o tronco, Paul Williams já está cantando "Leave us alone, we'll live in the country / leave us alone, we’ll make it just fine". Não sei bem se foram os desafinos, as paradinhas, o tronco ou se foi mesmo a letra; o caso é que eu achei essa música simplesmente uma beleza. Que se há de fazer? Eu achei a música linda. Vi 3 reprises em 2 meses só pra ouvir ela de novo.

Então lembrei do Napster. Umas 8 pessoas tinham a música ali, acreditem. O download não bichou no meio, deu tudo certo e agora ela está salva e disponível no meu winamp. Olha só como ela é:

What would they say / if we up and ran away / from the roaring crowds / and the worn-out city faces?

Would they carry on and on / when they found that we were gone? / Or would they let us go?

Would they tag along / or would they know to

Leave us alone / we’d live in the country / leave us alone / we’d make it just fine
Happy in a one-room shack / and we’d not look back / now would we?

What would they do / if they found that we were through / with all the little lies / and the downtown aggravations?

That we’ve traded them away / for a quiet country day / that we have hoped to share?

Would they try to find out / where we were wrong?

Leave us alone / we’d live in the country / leave us alone / we’d make it just fine
Happy in a one-room shack / and we’d not look back / now would we?

What would they say / if we up and ran away?
ran away.


Eu tenho que dizer que estou viciada nessa música. Ouço umas 4 vezes seguidas e canto e depois volto pro computador pra ouvir de novo. Mas é a letra. É uma boa letra. Uma versão hipponga e paranóica do Casa de Campo, da Elis Regina. O Paul Williams só quer ficar tranqüilo num lugar bonito, sem dinheiro, sem trabalho, sem confusão de cidade por perto. O Paul Williams só que ser feliz, e eu também, oras.

Problema é que a vida, assim vidinha como ela é, parece sempre nos empurrar pro caminho contrário. Enquanto a gente devia estar por aí tocando troncos, que é que a gente faz? Levanta cedo com o coração disparado pelo assustador, se espreme nos ônibus e trens, passa quase todo o dia em trabalhos chatos / odiosos / desgastantes
/ sem estímulo / sem perspectiva, se entedia, se esgota e se embrutece.

Da vitrine do meu trabalho embrutecedor, vejo só gente correr de lá pra cá, muito suada num terno ou muito hesitante num salto. Vai ver a própria vitrine é a minha bolha, cada escritório outra bolha, cada sala de aula. E a gente vai aceitando, vai ficando, enquanto lá fora tem tronco e sol e riacho pra gente nadar, lua cheia, lua nova, vento, frio, o mar e as montanhas.

E como está tudo errado mesmo, como o mundo está todo errado, eu volto pra casa depois de um dia de bolha cansada demais pra procurar um tronco amigo. Eu volto e me atiro na cama e ouço a voz esganiçada do Paul Williams, e penso que um dia eu também vou me cansar dos aborrecimento da cidade e dos rostos exaustos, e aí me mando pra ser feliz numa cabana. And i’ll not look back.

mais um chororô de bel seslaf