| nervocalm gotas (vol.1) |
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outubro 17, 2002 Os primórdios da minha socialização foram um completo desastre. Todas as minhas amigas foram embora. Eu não tenho dúvida de que foi este mau começo que me transformou na pessoa mais socialmente inábil do planeta, fora os obviamente patológicos. Veja só se não é pra ter pena de mim: Do jardim da infância não lembro de muita coisa, a não ser o labirinto no parquinho, que cheirava a xixi, de fugir da diretora, que apertava e torcia nossas bochechas, e do Santiago, um menino lourinho de quem eu gostava. Revi uma foto dessa época outro dia. Toda a turma vestindo a camiseta vermelha do uniforme, menos o Santiago. O Santiago estava de verde. Deve ter ido longe, esse menino. Acabou o jardim e fui pro Santo Antônio fazer o pré. Logo fiz uma melhor amiga, a Anelise. Pelo que me lembro, a Anelise tinha sofrido algumas esquisitices na família e por isso estava sendo alfabetizada aos 14 anos. Não me parece muito plausível hoje, é verdade. Mas, com certeza, a Anelise era mais velha, pelo menos bem mais alta que eu. Magra, cabelo castanho nos ombros. Estávamos sempre juntas. No fim do ano, ela foi embora de Brasília. Na primeira série, conheci a Danielle. Ela era branca e sardenta, de cabelo preto e enrolado. Um dia fui à casa dela e ela me serviu gelatina cremosa. Eu adoro gelatina, mas, cremosa, nem pensar. Engoli tudo de qualquer jeito, pra ser educada, e ainda disse ‘já pode casar’. Até hoje sinto a vergonha desse momento. Eu e a Danielle viramos as melhores amigas da primeira série. Estávamos sempre juntas. No verão, a família dela se mandou pra Roma. Aí veio a segunda série e, com ela, a Flávia. Ah, da Flávia eu sinto falta até hoje. Ela era loura e gordinha, tinha um irmão chamado Clóvis, e dizia que era prima do Ney Matogrosso porque era de Campo Grande, ou Cuiabá. A família inteira da Flávia me adorava. Passei muitos domingos na casa do avô dela. Eu e a Flávia nos entendíamos tão bem. Estávamos sempre grudadas. Em dezembro, a família voltou pra Cuiabá, ou Campo Grande. Realmente, como eu poderia criar laços? Na terceira série, meus pais resolveram que eu estudaria de manhã. Foi a derrocada total. Mesmo com essas terríveis perdas, eu ainda conseguia ser, à tarde, a dona da bola. Durante as aulas, eu era do tipo que sempre sabia, mas nunca dava a resposta certa; soprava pra quem estava do lado. Porém, no recreio, eu virava uma tirana de trancinhas: as meninas só faziam o que eu mandava, só brincavam do que eu brincava, não sei porquê. Fui ver, e de manhã já tinha outras chatonildas exercendo esse papel. Resultado: me recolhi, me calei, me cheguei na mais certinha, engordei, saí do balé, engordei mais, riram de mim, eu fazia piano, ninguém me tirou pra dançar, nunca um correio elegante, só chegavam perto pra pedir desenhos, ou cola na prova, eu era péssima na educação física, eu odeio queimada, comecei a ler crônicas, as meninas já tinham peito, eu não, meu cabelo era seboso, o Newton disse que eu era mais bonita que a menina mais feia da sala, todo mundo fazia farra nas aulas de recuperação, eu passava direto, fiquei menstruada na viagem de oitava série, não quis descer a escadaria na formatura, nunca mais ninguém soube de mim. Aceito tapinhas nas costas. mais um chororô de bel seslaf |
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