nervocalm gotas (vol.1)
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dezembro 18, 2002  

natalinas

1. As tradições de natal sempre foram muito respeitadas na minha família. Não a tradição católica de menino Jesus, presépio e missa do galo, mas aquelas outras, de pinheiro, neve, nozes, renas voadoras e outras coisas assim típicas deste nosso país. Nunca, jamais, ganhamos presentes antes da manhã de natal, na ceia ou até semanas antes, como é comum em outras famílias. O negócio era acordar de manhãzinha e sair correndo pra ver a árvore rodeada de pacotes que não estavam lá na noite anterior, porque é assim que o Papai Noel trabalha, minha gente. Era todo um ritual. É bastante improvável que eu vá fazer o mesmo pelo meu possível futuro filho, mas a verdade é que os meus pais nos deram dezembros muito excitantes.

2. Uma tradição importante era chegar da ceia, que geralmente era passada na casa de uma tia, e preparar um chocolate quente e uma gorda fatia de panetone pra deixar perto da árvore, pro Papai Noel. Eu achava que nós devíamos ser as crianças mais bondosas do mundo. Agora eu sinto pelo meu pai, que tinha que encarar aquele lanchinho numa noite de verão depois de ter enchido a barriga de vinho, lombo e bacalhau.

3. Que eu saiba, ninguém me disse que Papai Noel não existia. Talvez a minha prima Gabi tenha falado e eu não tenha acreditado, não sei. Eu só soube mesmo que Papai Noel não existia quando um vizinho magrela teve a infeliz idéia de aparecer lá em casa muito mal fantasiado. Eu não entendia porque os meus pais estavam agindo como se não tivessem reconhecido o Raimundo! E então percebi que estavam todos fingindo, os velhacos. Fiquei triste pra caramba.

4. Nossa árvore de natal é bem grande. Era gigantesca quando eu era criança. Certa vez, vi um desenho de natal do Pato Donald em que ele cortava um pinheiro pra levar pra casa e era justamente o pinheiro onde o Tico e o Teco moravam. Ele enfeitou o pinheiro todo e aí o Tico e o Teco ficavam correndo dentro da árvore em galhos enfeitados de luzinhas, bolas e fios coloridos. Eu achei aquilo tão lindo, mas tão lindo, que também quis ser bem pequena pra poder morar na árvore de natal. Isso eu não consegui, mas até hoje eu me deito no chão com a cabeça debaixo dela pra ficar olhando as luzinhas de dentro pra fora.

5. Minha família também é bem grande e era ainda maior quando eu era criança, ou pelo menos mais unida. Quando eu tinha uns 6 ou 7 anos, fizeram um amigo-oculto monumental e eu tirei logo quem? Mamãe. Quando li o nome dela no papelzinho, achei que aquilo não estava certo e fiz uma birra até me deixarem trocar. Quando consegui, que tragédia: percebi que tinha acabado de rejeitar a minha própria mãe. Acho que ela nunca soube disso, mas eu fiz questão de ficar infeliz naquele natal, só pra pagar a minha culpa.

6. Sem dúvida nenhuma, a melhor coisa que eu já encontrei debaixo da árvore de natal foi o meu patinete. Como eu amei o meu patinete, vocês não fazem idéia. Isso na época em que patinete era uma tábua de madeira com rodinhas e um guidom de ferro e plástico. O meu tinha fitinhas vermelhas e azuis no guidom, lindo que ele era. Meu patinete era meu melhor amigo. Mas eu era uma menina de apartamento e ele, um patinete de corredor.

mais um chororô de bel seslaf