nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


janeiro 16, 2003  

O animal com que eu mais me identifico é o caracol. Estranhamente, o caracol é sempre representado de forma fofa e amiga, assim como o porco, que no chiqueiro real não é adorável e cor-de-rosa. O caracol não é amarelo e adorável. O caracol não passa de uma lesma.

A lesma é um animal jamais representado como preto e adorável. A lesma é universalmente reconhecida como um bicho penosamente lento e ainda por cima asqueroso. Já eu tenho uma certa simpatia pela lesma, por sua ingenuidade. Afinal, a lesma passa toda a vida tentando fugir daquele rastro de nojo que ela deixa. Ou talvez ela saiba que o nojo é ela, e por isso é que é tão lenta. Claro, quanto menos a lesma se move, menos rastro a lesma deixa.

O caracol é uma lesma com um fardo a mais pra carregar. Há quem chame o fardo de casa. Se “o meu corpo é a minha casa” e a minha cabeça é o baú no sótão, então eu digo que dá no mesmo. O fato é que as caracolices do caracol não o deixam nunca. Estão sempre ali pesando e, pesando, estão presentes. O caracol não se desliga; não há nirvana possível pra ele.

E então que o porco chia, mas não quando está no desenho. E então que o caracol é amigo, ainda que nesse fardo de inércia e gosma.

mais um chororô de bel seslaf