nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


junho 20, 2003  

Está certo que eu sempre tive um talento todo especial pra distorcer as coisas até que caibam direitinho no que me interessa. É por isso, inclusive, que eu gosto de literatura: literatura é matéria-prima para distorções. Mas, mesmo assim, eu às vezes penso que o resto do mundo é que está louco, não enxergando o que me parece ser tão claro.

Eu já falei aqui do Fausto do Goethe, por exemplo. Sempre me incomoda ver o livro resumido como “a história do homem que vende a alma ao diabo para ter tudo com que sempre sonhou”, quando, na verdade, esse Fausto aceitou um acordo proposto pelo diabo só pra provar que não sonhava e não queria e não gostava de nada. Foi pura birra.

Pois bem. Também me incomoda abrir o guia da Folha toda sexta e dar de cara com o cartaz da peça Alice no país das maravilhas, que só traz um close da atriz caracterizada, de braços abertos e com um sorrisão. Isso não me parece certo. Isso é até injusto. A Alice pode até dar título à história, mas não devia ser o personagem de destaque. Todos os outros – a rainha, o gato, o chapeleiro, a tartaruga – têm algo de novo a dizer, menos ela. Ela é só o fio condutor, assim como a Clara, do Quebra Nozes (essa é pra quem teve que fazer balérg). A Clara é considerada o personagem principal, e o que ela faz? Passa todo o segundo ato sentadinha, assistindo aos outros dançarem. Como ela, a Alice só assiste aos outros brilharem.

As pessoas costumam se referir ao livro como “a história de uma garotinha muito curiosa etc”. É o oposto. A Alice não é nada curiosa: ela é de um ceticismo ímpar; resiste a absolutamente tudo que lhe falam; e, no meio de um mundo nonsênsico, consegue manter uma sensatez inabalável.

De um jeito ou de outro, ela sempre tenta impor ou restabelecer a ordem. Se começam a dizer absurdos, ela interrompe, desmente, argumenta e, quando vê que não vai conseguir botar juízo na cabeça daqueles desvairados, ela se cala num silêncio orgulhoso de quem sabe que está com a razão. A Alice é a dona da verdade e, mesmo topando com bichos falantes e cartas de baralho pintoras, ela não aceita, em nenhum momento, que está num mundo em que as regras que conhece e respeita não se aplicam. Ela continua insistindo no que é certo, continua pensando no que é “proper”.

Custo a acreditar que o Lewis Carroll quis fazer da Alice uma representante da lógica infantil que, dizem, ele tanto admirava. Pois eu acho que a Alice é o único adulto da história. E um adulto chato, ainda por cima. Naquele jogo, ela não só se recusa a brincar, como tenta impedir os outros de se divertirem. Que criança, num “país de maravilhas”, se manteria tão sizuda e tão turrona? Certamente não uma garotinha curiosa.

Eu adoro Lewis Carroll, leio e releio esse livro, mas não adoro o personagem Alice. O que interessa nela é seu papel de contraste: ela serve apenas pra mostrar como todos os outros personagens da história são originais, geniais e hilariantes.

ps. Pensando bem, há um outro adulto na história: o coelho. O coelho estressado e neurótico, sempre de olho no relógio pra não perder o compromisso. E foi seguindo o coelho que Alice se meteu nessa.

mais um chororô de bel seslaf