nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


setembro 08, 2003  

Aqui no lar dos Seslaf de Zumasáenz nós não temos uma rotina muito comum: não trabalhamos fora, não temos carro e só vamos aonde os pés e o metrô alcançam, isso quando saímos de casa. Mas fizemos um programa atípico no último sábado e eu pude sentir o gostinho ilógico e hiperbólico da vida na cidade grande. Foi assim:

Perplexed Productions presents - O cinemark

Cena 1, a bilheteria
Foi a primeira vez que estive num desses mega-complexos de cinema de shopping center. Antes eu era da turma do "não fui e não gostei"; agora eu finalmente tenho argumentos pra evitá-los para tooodo o sempre. De cara, a bilheteria parece um aeroporto, com monitores de tv mostrando qual filme está pra pousar e qual filme já está na pista. Por algum motivo que eu não vou procurar entender, essa informação não fica ali paradinha num só monitor pra você ler, não. Ela fica piscando e brilhando e saltando sem parar em 8 telas azul-espasmódico, para o seu melhor conforto. Embaixo dos monitores ficam as criaturas antigamente conhecidas como 'bilheteiras' e que hoje em dia precisam fazer treinamento na Nasa pra operar a cápsula espacial onde trabalham. Na frente da cápsula, fica o curral: um caminho demarcado que você tem que percorrer pra poder comprar o ingresso. Estranhamente, quase ninguém que chega vai entrando de uma vez no curral; todos se aglomeram em volta dele e hesitam como boi medroso por cerca de um minuto e meio antes de se decidirem.

Cena 2, o baleiro
Provavelmente há uma palavra nova pra designar os antigos baleiros, mas eu ando mesmo desatualizada. É que, no passado, baleiros eram balcões discretos na entrada dos cinemas onde você comprava mentex, confeti e caramelos-caramelos-caramelos-caramelos nestlé. Hoje, o mentex são vários, o confeti foi devorado pelo m&m, os caramelos-caramelos já não existem e o balcão, que só falta fazer transações bancárias internacionais, é bem mais extenso que a tela do cinema. O Pablo foi lá e pediu o menor suco que tivesse; era de meio litro. Pipoca, só nos tamanhos balde, barril e contêiner. Compramos jujubas.

Cena 3, as salas
São 11, até onde eu contei. Pra chegar até elas, você tem que percorrer um verdadeiro labirinto. Eu tenho certeza de que muita gente já se perdeu por ali e nunca mais foi encontrada. No caminho acarpetado, estilo Las Vegas, vários monitores de tela plana piscam e berram neuroticamente os próximos lançamentos que você não pode perder, não pode perder, não pode perder. Por sorte, conseguimos vencer todos os obstáculos e chegar ainda conscientes à sala 9, que estava quase vazia e assim permaceceu. Na certa, muitas das pessoas que compraram ingresso pra sala 9 foram ficando pelo caminho; ou perdidas no labirinto, ou hipnotizadas diante dos monitores coloridos, ou afogadas na sua coca-cola média de 2 litros, vá saber.

Cena 4, a saída
O planejador do cinemark seguiu à risca o Manual Prático da Perversidade Comercial aqui. Você sai do cinema direto para uma escada sinuosa, dentro de um corredor apertado que você não sabe onde vai dar, e é forçado a descer lance após lance interminavelmente, já tomado pela angústia. De repente, as portas da esperança se abrem e você desemboca bem no centro na praça de alimentação. Mas que arapuca! Meu conselho é: olhe pra baixo, saia correndo até a escada-rolante mais próxima e não pare até chegar na rua. Aí, eles não vão mais poder te pegar.

Cena 5, o estacionamento
Apesar de morarmos a poucos metros de uma estação de metrô e do shopping em questão ficar em cima de uma outra, o nosso acompanhante quis ir de carro. "Por que vocês não compram um carro?", todos me perguntam. "Com carro você pode passear, viajar, ir pra onde quiser, quando quiser. Carro é liberdade." Arrã. Saímos do cinema com um pouco de fome, mas não podíamos comer no shopping porque 1) não compactuaríamos com a perversidade descrita na cena 4 e 2) se ficássemos mais 5 minutos ali dentro, o dono do carro teria de pagar mais de 5 reais de estacionamento, e ele estava muito tenso com essa perspectiva. Cogitamos esticar num restaurante, mas não podia, não tinha estacionamento. Sugerimos uma lanchonete, mas não dava, não tinha lugar pra parar. Nas calçadas, os pedestres se davam ao luxo de escolher em qual dos muitos restaurantes abertos terminar a noite. Mas o bastião da liberdade, esse seguiu direto pra casa.

Tá todo mundo doido, credo.

mais um chororô de bel seslaf