nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


outubro 30, 2003  

Difícil ser funcionário
nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos,
pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
que me deixa assim.
Cinemas, avenidas
e outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
o luto desta mesa,
é o regimento proibindo
assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitaria
tanta roupa preta.
Tão pouco essas palavras
funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
que nunca escreve cartas.
Há uma garrafa de tinta
que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
as caixas de papéis;
túmulos para todos
os tamanhos do meu corpo.

Não me sinto correto
de gravata de cor,
e na cabeça uma moça
em forma de lembrança.

Não encontro palavra
que diga a esses móveis.
Se eu pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea,
como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
pedindo conselho.
João Cabral de Melo Neto

mais um chororô de bel seslaf