nervocalm gotas (vol.1)
nervocalm gotas (vol.1)


janeiro 06, 2004  

trecho do abortado

Em frente à livraria há um boteco onde a gente passa os 15 minutos matinais e os 15 minutos vespertinos do nosso cafezinho. Quando as circunstâncias nos impedem de pegar um livro da prateleira para nos fazer companhia, o jeito é bater um papo com os funcionários do bar. Os fazedores de café e suco, sempre ali no balcão, já eram mais que conhecidos, mas foi o chapeiro quem, um dia, saiu de lá dos fundos e se aproximou de mim todo tímido para perguntar

– Você trabalha ali na livraria, né?

– Trabalho.

– Então. É que eu preciso de um livro pro meu filho.

– É? Qual livro? Eu vejo lá se tem pra você.

– É um livro assim... – mostrando o tamanho com os dedos – Assim.

– Você sabe o nome?

– Ai, sei não. É assim...

Eu olho pro livro imaginário que ele delimita com os dedos, mas não consigo ler nem título nem autor.

– Hum. É pra escola que o seu filho precisa do livro?

– Acho que é.

– E você não sabe sobre o que ele fala?

– Ah, é um livro.

– Bom, mas tem muitos livros diferentes, né?

– É um livro de palavras.

– De palavras?

– É. Assim... – firmando bem os dedos para não haver dúvida - mais ou menos.

Olho de novo para o gesto que ele faz. Nem a cor da capa dá pra ver assim.

– Hum, será que é um dicionário?

– Diçonáro?

– É, é um livro que explica o significado das palavras.

– E é assim, desse tamanho?

– Alguns são, os menores. Tem outros grandes também, mas os pequenos assim são mais usados na escola. Cabem na mochila, né?

– Aí eu não sei, viu?

– A que hora você sai daqui? Você não quer passar lá na livraria depois? Aí eu te mostro.

– Ai, mas...

– Ou então você pergunta pro seu filho direitinho o que é.

– Ah... Mas quanto custa?

– O que, o dicionário?

– O livro.

– Bem, a gente ainda não sabe exatamente que livro é, então...

– É um livro de palavras... É assim, ó.

Nisso, meus 15 minutos já estavam no fim. Os colegas do bar já estavam todos ali em volta, ouvindo a conversa, tirando sarro do chapeiro e do seu livro de palavras, chamando ele de burro. Paguei meu café, me despedi, disse de novo pra ele passar na livraria mais tarde, sabendo que ele nunca faria tal coisa, e voltei para os meus clientes, os que completaram o primeiro, o segundo e até o terceiro grau, e que me perguntam se tem aquele livro amarelo, sabe?, aquele assim...

mais um chororô de bel seslaf